O mito de Ariadne em Dark: fios vermelhos do destino

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O mito de Ariadne é um dos temas da série Dark, da Netflix. Conforme vimos no post anterior, Martha interpreta essa personagem da mitologia grega em uma peça de teatro. No quinto episódio da primeira temporada — “Verdades” (2017) —, a garota recita um monólogo épico enquanto ensaia.

O mundo antigo a perseguia como um fantasma, sussurrava em seus sonhos como erguer um mundo novo, pedra por pedra. E assim eu soube que nada muda. Que tudo fica como antes. Que a roda gira, volta após volta. Um destino ligado ao outro. Um fio, vermelho como o sangue, que liga todas as nossas ações. Não é possível romper os nós (…)”.

No sexto episódio — “Assim foi criado o mundo” (2017) —, enfim vemos a performance definitiva de Martha, com elevada carga dramática. No papel da personagem mitológica, ela entrega o novelo de fios vermelhos a Teseu, em seguida promete guia-lo: Precisa ir fundo, até o meio. Ele está esperando nas sombras. Metade homem, metade animal (…). Este laço que tecemos agora, prometa que nunca o romperá”.

Enquanto isso, Jonas penetra nas profundezas da caverna, percorrendo com as mãos um fio vermelho. Martha, então, prossegue: “Assim como ele desceu em seu labirinto, eu desço no meu (…). Nosso fim é o mesmo. Aqueles lá em cima nos esqueceram (…)”. O paralelismo entre as cenas reforça a relação com o mito de Ariadne, recurso frequentemente utilizado em Dark. Depois, no momento em que a garota cai em lágrimas, sua mãe Katharina (Jördis Triebel) sobe ao palco para confortá-la.

Uma interpretação do monólogo de Ariadne

Agora interpretaremos o monólogo de Martha, que no contexto de Dark faz alusão não só ao mito de Ariadne como também a Nietzsche. Visto que as ideias do filósofo alemão, abordadas no primeiro post desta série, fundamentam a série, os versos recitados fazem alusão a muitas delas. Por exemplo, o tempo não é linear, mas cíclico, e tudo retorna (“a roda gira”). O destino é uma força inexorável (“não é possível romper os nós”). E todos os eventos estão pré-determinados, por isso vão sempre se repetir, até o fim dos tempos (“nada muda”, “tudo fica como antes”). Se tudo retorna eternamente, o futuro já é um passado; e o presente também, assim como o futuro.

Mas o passado se impõe. O “mundo antigo”, com suas tradições, persegue Ariadne tanto quanto a garota que a interpreta. A referência à “morte de Deus” (dos deuses, aliás: “Aqueles lá em cima nos esqueceram”) traz um dos aspectos do niilismo de Nietzsche, que abordaremos em um próximo post.

Além disso, no centro (“meio”) do labirinto mítico vive o Minotauro, com corpo de homem e cabeça de touro (parte homem, parte animal”). Filho de Pasífae, esposa de Minos, com um touro mandado ao rei por Poseidon, é ele quem espera nas sombras. A peça revela seu parentesco com Ariadne: se ambos eram filhos de Pasífae, eles eram, portanto, irmãos. A relação é óbvia, apesar de não ser muito lembrada nem nos livros de mitologia. Da mesma forma, é interessante pensar na complexa rede de parentesco transtemporal que une os personagens da série, dando à história uma estrutura mítica.

O labirinto do Minotauro

As cenas da peça de teatro e da descida à caverna são importantes. Além de evocar o mito de Ariadne, o paralelismo relaciona Jonas a Teseu, herói que entrou no labirinto com o intuito de derrotar o Minotauro, tema do próximo post. Em Dark, há três representações do labirinto mítico. A caverna, com sua rede de passagens subterrâneas. A floresta negra, que cerca a cidade. E as viagens no tempo, recurso usado em muitas histórias de ficção científica. Alguns personagens eventualmente se perdem em outra época, outros fracassam em suas tentativas de mudar a história. A série, então, relaciona esse tema à ciência e à filosofia.

No quinto episódio, a policial Charlotte Doppler (Karoline Eichhorn) conta ao seu colega Ulrich (Oliver Masucci) sobre seu avô. Diz que ele era obcecado pelo ciclo solar, pelas teorias do Big Bang e do Big Crunch, e pelo Eterno Retorno de Nietzsche. Charlotte foi criada pelo relojoeiro e cientista H. G. Tannhaus (Christian Steyer), cujo livro “A Journey Through Time” (uma jornada através do tempo) foi publicado pela editora Mino Tauros. Apesar de ser um easter egg (uma surpresa escondida na trama), essa é mais uma referência ao monstro nas sombras.

Referências

Dicionário de mitologia grega e romana (2011), de Pierre Grimal.

Dicionário básico de filosofia (1991), de Hilton Japiassu e Danilo Marcondes.

Mistério de Ariadne segundo Nietzsche (2006, p. 7-17), de Gilles Deleuze.

Como citar este artigo? (ABNT)

REIS FILHO, L. O mito de Ariadne em Dark: fios vermelhos do destino, Projeto Ítaca. Disponível em: https://projetoitaca.com.br/dark-e-o-mito-de-ariadne-parte-2/. Acesso em: 04/07/2022.

Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Historiador, professor e escritor. Tem Doutorado em Comunicação (Cinema e Audiovisual) e especialização em Estudos Clássicos.
Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Historiador, professor e escritor. Tem Doutorado em Comunicação (Cinema e Audiovisual) e especialização em Estudos Clássicos.

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