God of War: o que significa Ragnarök?

“As pessoas deviam parar de rezar para monstros”, diz Kratos. Depois que arrasou o panteão grego, o matador de deuses viu-se em um novo mundo, com novas regras. O reboot de God of War (2018) é uma viagem pelas antigas terras escandinavas, lar de guerreiros e seres lendários. Esse é o mundo da mitologia nórdica. Sabemos agora que o futuro da franquia será o Ragnarök.

O novo game foi revelado no evento PlayStation 5 Showcase da Sony, em setembro de 2020. Lançado dois anos depois, em novembro de 2022, God of War: Ragnarök é uma sequência direta do reboot de 2018 (PS4). Dessa vez, o próprio título faz menção a um grande evento da mitologia nórdica.

A revelação não mostrou o gameplay, mas apenas um teaser com a frase “Ragnarök está vindo” e a narração de Kratos, que diz: “A hora está chegando. Você deve se preparar”. Na tela surge o logo do game, repleto de runas, na cor azul. Mas o que é o Ragnarök? Continue lendo para descobrir.

O Ragnarök na mitologia

O termo Ragnarök quer dizer “consumação dos destinos dos poderes supremos”. Tem relação, portanto, com a série de eventos que levará à morte dos principais deuses nórdicos e à destruição de parte do universo. Por isso, é como o Juízo Final, uma guerra onde deuses e monstros cairão. Mas, se todo fim leva a um recomeço, alguns humanos e divindades sobreviverão em uma nova ordem cósmica.

Na mitologia nórdica, o tempo era cíclico; nada durava para sempre, nem os deuses. Assim sendo, o universo chegaria ao fim no Ragnarök, batalha final apoteótica entre os deuses e os gigantes que destruiria o mundo. Entretanto, esse evento não seria o fim último; alguns sobreviventes emergiriam de seus refúgios para repovoar um mundo novo e melhor. Será Kratos um desses sobreviventes?

O crepúsculo dos deuses

As profecias tinham papel fundamental na mitologia nórdica. O poema épico Völuspá, de natureza profética, fala de um verão em que o sol se tornaria negro. Assim que isso ocorresse, o gigante que cuidava do lobo Fenrir subiria um morro e tocaria sua harpa. Três aves, então, anunciariam o início do Ragnarök, do Valhalla (paraíso) aos portões de Hel (submundo), despertando os guerreiros mortos.

A partir daí, a sociedade humana entraria em colapso com irmão matando irmão, incesto e adultério. Nenhum homem pouparia seu semelhante. Heimdall, o vigia dos deuses, soaria o alarme com seu chifre Gjallarhorn, enquanto Odin buscaria conselhos da cabeça do sábio Mímir. A terra então começaria a tremer, e a árvore do mundo Yggdrasil balançaria e gemeria, sem cair. Os gigantes ficariam loucos, e almas aterrorizadas desceriam para Hel. Hrym lideraria os gigantes de gelo do leste; a Serpente de Midgard sacudiria o mar com sua fúria; e as águias guinchariam em um festim de cadáveres. Desfiladeiros se partiriam, o céu se despedaçaria com os elfos, e os anões, em seguida, uivariam aterrorizados.

O fim e o recomeço

De acordo com a Edda poética, tais eventos anunciariam a batalha final. Filho do deus da trapaça Loki, o lobo Fenrir mataria Odin, levando seu filho Vidar a vingar a morte do pai, atravessando o coração do monstro com sua espada. Thor executaria a Serpente de Midgard, mas andaria só nove passos antes de cair morto. Surt aniquilaria Freyr, o deus da fertilidade. Conforme a batalha se inflamasse, as estrelas sumiriam do céu e o fogo subiria até o firmamento, enquanto a terra devastada sucumbiria nas profundezas do mar.

Logo, um mundo novo surgiria das ondas, eternamente verde e com plantações que cresceriam sem semeadura. Alguns dos deuses Aesir se reuniriam na planície de Idavoll, onde outrora Asgard se localizava. Eles falariam sobre o Ragnarök e relembrariam o passado. Baldur e seu assassino Hod ressuscitariam dos mortos, reconciliados, e viveriam em paz. Alguns humanos, filhos de dois irmãos não identificados, também sobreviveriam, então seus descendentes se espalhariam pelo mundo.

Völuspá conta que, dali em diante, o povo virtuoso daquela terra viveria uma vida feliz em um salão novo, bonito, com teto de ouro. Nesse momento, um “ser extremamente poderoso, no controle de todas as coisas”, desceria dos céus. O poema épico não identifica a figura misteriosa, mas há quem afirme se tratar de uma alusão ao Juízo Final cristão.

O Ragnarök em God of War

No universo de God of War, a figura misteriosa pode muito bem ser Kratos. Após chegar às terras nórdicas do norte, o Fantasma de Esparta viveu na solidão por 75 anos, período em que tentou se livrar das memórias que ainda o assombram. Depois desse tempo, conheceu uma mulher chamada Faye, que o ensinou a abrir seu coração, e os dois tiveram um filho. Kratos deu a ele o nome Atreus, em homenagem a um soldado espartano que lutou ao seu lado muitos anos antes. A base da história é a relação entre pai e filho, ainda que o novo game seja mais sobre Atreus. Juntos, eles caminharão rumo ao Ragnarök.

Referências

O livro da mitologia (2018).

Dicionário de mitologia nórdica (2015), de Johnni Langer (org.).

Como citar este artigo? (ABNT)

REIS FILHO, L. God of War: o que significa Ragnarök?, Projeto Ítaca. Disponível em: https://projetoitaca.com.br/god-of-war-o-que-significa-o-ragnarok/. Acesso em: 16/04/2024.

Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Lúcio Reis Filho é Ph.D. em Comunicação (Cinema e Audiovisual), escritor e cineasta especializado nas interseções entre Cinema, História e Literatura, com foco nos gêneros do horror e da ficção científica. Historiador com especialização em Estudos Clássicos pela Universidade de Brasília, em parceria com a Cátedra Unesco Archai (Unb/Unesco), é Coordenador do Projeto Ítaca. Seus interesses acadêmicos e de pesquisa são essencialmente interdisciplinares; abrangem Cinema, Artes Visuais, História, Literatura Comparada e Estudos da Mídia. Escreve periodicamente resenhas de livros, filmes e jogos para diversas publicações.
Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Lúcio Reis Filho é Ph.D. em Comunicação (Cinema e Audiovisual), escritor e cineasta especializado nas interseções entre Cinema, História e Literatura, com foco nos gêneros do horror e da ficção científica. Historiador com especialização em Estudos Clássicos pela Universidade de Brasília, em parceria com a Cátedra Unesco Archai (Unb/Unesco), é Coordenador do Projeto Ítaca. Seus interesses acadêmicos e de pesquisa são essencialmente interdisciplinares; abrangem Cinema, Artes Visuais, História, Literatura Comparada e Estudos da Mídia. Escreve periodicamente resenhas de livros, filmes e jogos para diversas publicações.

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