A luz e as trevas em Final Fantasy IV

Da franquia, Final Fantasy IV (FFIV) foi o primeiro game com uma narrativa “cinematográfica” inegavelmente madura, embora despretensiosa — até mesmo inocente, nos dias atuais. De acordo com o artista Takashi Tokita, a ideia era que fosse o Final Fantasy definitivo, reunindo o melhor dos predecessores. Mas, se era até então o mais polido visualmente, ainda estava longe do que o futuro reservava em termos técnicos. Quanto à narrativa, é um épico fantástico que traz a clássica guerra da luz contra as trevas, isto é, do bem contra o mal. Neste novo texto da série “a mitologia em Final Fantasy”, vamos explorar a riqueza temática de FFIV, que os fãs lembram com saudade.

Um mundo com duas luas

Se os cristais sabem, eles não partilham respostas — apenas sua luz pura e silenciosa.

Há muito tempo, a misteriosa raça dos lunares deixou para trás sua terra natal rumo ao que chamou de Planeta Azul. Esse povo, em sua maioria, quis se integrar aos habitantes daquele mundo; mas Zemus defendia que tomassem o Planeta Azul à força. Para ele, os lunares eram de uma raça superior. Contudo, seus irmãos discordaram de seus planos e o prenderam. Os demais pegaram no sono, na recém-construída Lua Vermelha, onde aguardariam a ascensão dos nativos da superfície ao seu nível. Foi assim — a partir dessa história de criação — que o Planeta Azul passou a ter duas luas.

Muitos séculos depois, o povo do Planeta Azul enfim aprendeu a fazer aeronaves. A tecnologia, no entanto, levaria a uma nova guerra. Após criar um poderoso esquadrão, o reino de Baron investiu contra territórios vizinhos a fim de roubar os cristais que lançavam dádivas sobre o mundo. No comando das invasões estava Zemus, cuja maldade só piorou no tempo atrás das grades. Sua manobra perversa opôs dois irmãos de sangue lunar: o mais velho, Golbez, saiu com o intuito de achar dos cristais; o mais jovem e de coração nobre, Cecil, de protegê-los. Do alto, as luas testemunhavam o empasse fraternal.

A luz e as trevas, de novo

Todos os conflitos de FFIV ficam claros em menos de dez minutos. As forças aéreas de Baron, as Asas Vermelhas, caem nas mãos dos Cavaleiros Sombrios, que atacam nações pacíficas com o propósito de achar os quatro cristais. Desses cavaleiros era Cecil, um deles rouba o Cristal da Água da cidade dos magos em Mysidia e descobre as intenções do Rei. Seu nome era Cecil. Depois que ele confronta o Rei na corte, torna-se um traidor, perde seu posto e é rebaixado. Em contraste, o vilão da história é seu irmão Golbez, o poderoso feiticeiro que se apossar da energia dos cristais.

Nesse ponto, o jogador assume o controle de Cecil, personagem de sangue lunar cujo amadurecimento se dá como resultado de um drama complexo. Assim, a trama de FFIV volta ao tom sombrio do segundo jogo, com mortes, sacrifícios, expiação de pecados e outros dilemas, com ecos da mitologia. Além disso, há a dualidade luz x trevas, que é representação da guerra do bem contra o mal. Posteriormente, para ajudá-lo na luta cósmica, unem-se ao herói uma dúzia de personagens controláveis de várias classes, tão populares no RPG (guerreiro, monge, invocadora, magos etc.).

No momento em que luta com o Cavaleiro Sombrio, representação de seu antigo Eu, Cecil embainha a espada. Isso porque, ao invés de cortar laços com o passado através da força, decide fazê-lo com o coração. Assim, o herói ganha poderes sagrados e vira um paladino de luz. O polo oposto é seu irmão de armadura sombria, que simboliza as trevas. Em contraste com a luz, Golbez é o mal encarnado. A revelação de seu parentesco com o herói reforça a dualidade universal, a luz contra as trevas.

O rico bestiário de FFIV

Analogamente à trilogia original, os cristais em FFIV tem relação com os quatro elementos. Conforme sabemos, tais rochas são sagradas em diversas culturas e simbolizam os poderes desconhecidos. São esses poderes que Golbez quer controlar. A fim de que seus planos se realizem, o vilão manipula o Rei de Baron, forçando-o a cometer os atos mais cruéis. Mais tarde, os quatro elementos tomam a forma de seres poderosos e maléficos à serviço de Golbez.

Dado o apelo da mitologia grega na franquia Final Fantasy, o bestiário desse quarto título traz vários de seus monstros. No mapa, há centauros, hidras, górgonas (incluindo a Medusa), quimeras e lâmias, para citar alguns, bem como a mãe dos monstros gregos, Equidna.

Por sua vez, Aracne vem da personagem de mesmo nome, que nos mitos era uma jovem famosa por tecer e bordar muito bem. Com suas mãos hábeis, ela supera Atena e acaba sofrendo as consequências: num ato de vingança, a deusa a transforma em aranha fiandeira. Não por acaso, a Aracne de FFIV é um monstro gigante, meio aranha, meio mulher.

O game também introduz versões estilizadas da roca e do ghoul, respectivamente a ave lendária e o demônio comedor de carne do folclore árabe. Sem contar os duendes, golens, nagas, vampiros, demônios, ogros, gigantes, basiliscos e dragões, de todos os tipos. Esses monstros dificultam a viagem dos heróis e engrossam a guerra da luz contra as trevas.

Leia o próximo artigo desta série em Gilgamesh em Final Fantasy V e outros seres lendários.

Referências

Bestiary (Final Fantasy IV) em Final Fantasy Wiki.

Dicionário de mitologia grega e romana (2011), de Pierre Grimal.

Final Fantasy: La leyenda de los cristales (2013), de Pablo Taboada.

Dicionário de símbolos (2020), de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant.

Final Fantasy Ultimania Archive Volume 1 (2018).

Os monstros da mitologia grega na série de games Final Fantasy, de Lúcio Reis Filho.

Como citar este artigo? (ABNT)

REIS FILHO, L. A luz e as trevas em Final Fantasy IV, Projeto Ítaca. Disponível em: https://projetoitaca.com.br/a-luz-e-as-trevas-em-final-fantasy-iv/. Acesso em: 23/04/2024.

Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Lúcio Reis Filho é Ph.D. em Comunicação (Cinema e Audiovisual), escritor e cineasta especializado nas interseções entre Cinema, História e Literatura, com foco nos gêneros do horror e da ficção científica. Historiador com especialização em Estudos Clássicos pela Universidade de Brasília, em parceria com a Cátedra Unesco Archai (Unb/Unesco), é Coordenador do Projeto Ítaca. Seus interesses acadêmicos e de pesquisa são essencialmente interdisciplinares; abrangem Cinema, Artes Visuais, História, Literatura Comparada e Estudos da Mídia. Escreve periodicamente resenhas de livros, filmes e jogos para diversas publicações.
Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Lúcio Reis Filho é Ph.D. em Comunicação (Cinema e Audiovisual), escritor e cineasta especializado nas interseções entre Cinema, História e Literatura, com foco nos gêneros do horror e da ficção científica. Historiador com especialização em Estudos Clássicos pela Universidade de Brasília, em parceria com a Cátedra Unesco Archai (Unb/Unesco), é Coordenador do Projeto Ítaca. Seus interesses acadêmicos e de pesquisa são essencialmente interdisciplinares; abrangem Cinema, Artes Visuais, História, Literatura Comparada e Estudos da Mídia. Escreve periodicamente resenhas de livros, filmes e jogos para diversas publicações.

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