Seiya, o Cavaleiro de Pégaso, e a mitologia grega

Cavaleiros do Zodíaco conquistou o coração de milhões de fãs nos anos 90. A saga dos guerreiros que lutam com a força do Cosmo, em armaduras sagradas que simbolizam as constelações, marcou época. Décadas mais tarde, ela chega aos cinemas em Saint Seiya: O Começo (2023). O filme em live-action, ainda que simplifique a narrativa, segue os passos do herói virtuoso conhecido por sua coragem – e por suas relações com os mitos gregos. Afinal, Seiya é o Cavaleiro de Pégaso. Vamos conhecê-lo!

Cavaleiro de Pégaso

A história de Cavaleiros do Zodíaco começou em 1986, com o mangá Saint Seiya de Masami Kurumada, adaptado para a TV naquele mesmo ano. O anime, que estreou logo em seguida, fez sucesso estrondoso nos anos 90, dando início a uma franquia de produtos e animações originais. Na obra de Kurumada, 88 guerreiros míticos juraram proteger Saori Kido, reencarnação da deusa Atena, dos outros deuses olímpicos que tentam dominar a Terra. No entanto, o título deixa claro quem é o protagonista.

No cinema, a trama segue os passos do jovem Seiya. Destinado a se tornar um guerreiro, ele viaja a um santuário grego para obter sua armadura de bronze. Lá, sua energia espiritual aflora e faz dele o Cavaleiro de Pégaso. Posteriormente, em um arco que não existe no filme, o garoto volta ao Japão para encontrar Seika, sua irmã mais velha, mas descobre que ela desapareceu. Então, envolve-se em um torneio galáctico com duas promessas: a de conquistar a armadura de ouro e recuperar sua irmã.

Seiya e o arquétipo do herói

Seiya é o arquétipo do herói virtuoso, de caráter, coragem e determinação inabaláveis, que age com altruísmo e amor pela justiça, com um toque de ingenuidade. Sua beleza é andrógina, como a dos ídolos da cultura pop japonesa contemporânea. Esse é o caso do ator Mackenyu, que dá vida ao personagem nas telas. Mas o que muitos não sabem é que o patrono ou guardião cósmico de Seiya vem da mitologia grega. Nela, Pégaso é o cavalo alado de várias lendas, como a de Perseu e, sobretudo, a de Belerofonte. A primeira ora afirma que o animal brotou do pescoço de Medusa, ora diz que nasceu da terra, fecundada pelo sangue da Górgona. Mal nasceu, levantou voo rumo ao Olimpo, onde passou a servir Zeus, para quem levou o raio. Por fim, o cavalo divino foi transformado em constelação.

Relações entre Seiya e Pégaso

Pégaso, o cavalo alado, era conhecido por sua beleza, rapidez e capacidade de voar pelos céus. Também era símbolo de inspiração poética, pois representava a conexão entre os deuses e os mortais. Enquanto Cavaleiro de Pégaso, Seiya compartilha com ele essas características. Sua destreza em combate é comparável à agilidade do cavalo divino nos céus; e seu principal golpe, o “Meteoro de Pégaso”, faz lembrar que o animal lendário também estava ligado à tempestade.

Além disso, Seiya é um líder nato e fonte de inspiração para seus companheiros, os demais Cavaleiros de Bronze. Etimologicamente, o nome Pégaso se aproxima do termo grego para “fonte” (pege), pois dizia-se que ele havia nascido das fontes do Oceano. Portanto, tal qual o cavalo alado que inspirou deuses e heróis, Seiya é exemplo para aqueles que precisam de justiça e proteção. Como Cavaleiro de Pégaso, seu principal objetivo é defender a deusa Atena e lutar contra as forças do mal. Assim sendo, a coragem e a dedicação fazem dele um símbolo de esperança e inspiração para todos.

A jornada do Cavaleiro de Bronze

Mas a relação entre Seiya e Pégaso vai além de seus atributos e habilidades, uma vez que as lendas refletem a jornada do herói como Cavaleiro de Bronze. Na mitologia, o cavalo alado representa a imaginação criadora e sua elevação real, isto é, as qualidades espirituais e sublimes que elevam o indivíduo. Não por acaso, é com a força de Pégaso que Seiya eleva seu Cosmo; o animal lendário também o conduz em suas provações e batalhas contra o mal, ainda que espiritualmente.

Além disso, enquanto figura mitológica central, Pégaso ressalta a importância da união entre humanos e seres divinos. Isso porque os Cavaleiros de Bronze, incluindo Seiya – escolhidos para proteger Atena e lutar contra as forças do mal –, forjam um elo entre o mundo dos deuses e o dos mortais. Podemos interpretar essa relação simbólica como metáfora para a jornada do herói. Assim como Pégaso era fonte de inspiração, Seiya lidera seus companheiros na busca por justiça, em defesa da Terra. Ele enfrenta desafios, supera suas próprias limitações e aprende lições valiosas ao longo de sua jornada, tornando-se um verdadeiro herói não apenas em combate, mas também na construção de sua identidade.

Enfim, Cavaleiro de Ouro: Sagitário

Dos icônicos personagens aos temas e conceitos abordados, Cavaleiros do Zodíaco faz inúmeras referências à mitologia grega. Se os Cavaleiros de Bronze personificam diferentes seres lendários, com poderes e habilidades relacionados às suas características, os Cavaleiros de Ouro representam os signos astrológicos. Nesse sentido, a relação de Seiya com Pégaso é apenas um exemplo de como a franquia incorpora tais elementos em sua narrativa. E faz isso de forma original.

No momento em que Seiya veste a Armadura de Ouro, a versão superior do Cavaleiro de Pégaso revela-se na forma de Sagitário, representado por um arqueiro. Isso é representativo, afinal, o significado do nome Seiya em japonês é “flecha estelar”. O nono signo do zodíaco é símbolo do movimento, da independência e dos reflexos rápidos. É a força das iluminações espirituais, das elevações interiores e da transcendência, em direção ao sobre-humano. Igualmente, a flecha em direção às estrelas significa o homem voando rumo à sua transformação em ser espiritual, pelo conhecimento. Assim como o arqueiro, Seiya é habilidoso em suas investidas contra os inimigos. O herói utiliza seus pulsos energéticos, conhecidos como “Meteoro de Pégaso”, para atacar seus adversários com força e precisão.

O legado de Seiya

Em Cavaleiros do Zodíaco, a relação entre a mitologia grega e os signos astrológicos adiciona camadas de profundidade e complexidade à narrativa. Afinal, os fãs podem explorar o simbolismo e as características de cada um dos personagens, encontrando neles diferentes significados. Tais camadas, no entanto, passam quase despercebidas em Saint Seiya: O Começo. Nesse, que é o primeiro título de uma pretensa franquia cinematográfica, as referências são escassas e superficiais.

Assim como o mangá e o anime, o filme segue os passos de Seiya para se tornar um herói. No entanto, a versão em live-action de Seiya é um lutador de rua que descobre seus poderes por acaso, no ringue. Logo em seguida, depois que o marcam como um “escolhido” e o agenciam para sua missão – de um modo muito mais hollywoodiano e menos dramático –, ele se revela o mesmo exemplo de virtude, cuja beleza, coragem, determinação e destreza refletem características do cavalo alado grego.

Nota-se que, a despeito da simplificação e das expressivas liberdades em relação à história original, a produção de fato se baseia a obra de Kurumada. No entanto, a jornada de Seiya nas telas não vai muito além da superfície, se comparada à saga heroica de sua contraparte animada. Decerto, Mackenyu traz muito do carisma e da popularidade do protagonista, mas há pouco das ricas referências à mitologia e aos signos astrológicos que alavancaram o sucesso de Cavaleiros do Zodíaco.

Referências

Dicionário de símbolos (2020), de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant.

Dicionário da mitologia grega e romana (2011), de Pierre Grimal.

“Beyond the ‘feminization of masculinity’: transforming patriarchy with the ‘feminine’ in contemporary Japanese youth culture” (Inter-Asia Cultural Studies, 2005), por Ilida Yumiko.

Como citar este artigo? (ABNT)

REIS FILHO, L. Seiya, o Cavaleiro de Pégaso, e a mitologia grega, Projeto Ítaca. Disponível em: https://projetoitaca.com.br/seiya-o-cavaleiro-de-pegaso-e-a-mitologia-grega/. Acesso em: 23/04/2024.

Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Lúcio Reis Filho é Ph.D. em Comunicação (Cinema e Audiovisual), escritor e cineasta especializado nas interseções entre Cinema, História e Literatura, com foco nos gêneros do horror e da ficção científica. Historiador com especialização em Estudos Clássicos pela Universidade de Brasília, em parceria com a Cátedra Unesco Archai (Unb/Unesco), é Coordenador do Projeto Ítaca. Seus interesses acadêmicos e de pesquisa são essencialmente interdisciplinares; abrangem Cinema, Artes Visuais, História, Literatura Comparada e Estudos da Mídia. Escreve periodicamente resenhas de livros, filmes e jogos para diversas publicações.
Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Lúcio Reis Filho é Ph.D. em Comunicação (Cinema e Audiovisual), escritor e cineasta especializado nas interseções entre Cinema, História e Literatura, com foco nos gêneros do horror e da ficção científica. Historiador com especialização em Estudos Clássicos pela Universidade de Brasília, em parceria com a Cátedra Unesco Archai (Unb/Unesco), é Coordenador do Projeto Ítaca. Seus interesses acadêmicos e de pesquisa são essencialmente interdisciplinares; abrangem Cinema, Artes Visuais, História, Literatura Comparada e Estudos da Mídia. Escreve periodicamente resenhas de livros, filmes e jogos para diversas publicações.

Uma resposta

  1. Postagem muito boa! Gostei da análise comparativa entre o Pégaso da literatura grega e o do CDZ.

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