Jonas é Teseu no labirinto: a mitologia grega em Dark

Compartilhar:

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp

Jonas é um dos protagonistas da série alemã Dark, da Netflix, com papel importante no desenrolar da trama. Em sua jornada para desvendar os mistérios de Winden, ele adentra na floresta negra e nas profundezas da caverna, percorrendo com as mãos um fio vermelho.

A simbologia é clara, como vimos no post anterior. Para relembrar: o jovem Jonas é uma representação de Teseu, que penetrou no labirinto e derrotou o Minotauro. Hábil em decifrar enigmas, o herói grego teve a ajuda de Ariadne, de quem ganhou um novelo para não se perder. Assim, ele pode lutar e matar o monstro, depois cortou-lhe a cabeça e conseguiu sair do labirinto. Anualmente (ou de três em três anos, conforme a versão da lenda), sete rapazes e moças atenienses eram oferecidos para o Minotauro, que os devorava. O resultado do ato heroico de Teseu foi quebrar o ciclo de sacrifícios e a própria tradição.

Jonas no labirinto

Na mitologia grega, Teseu é o herói por excelência e equivale ao próprio Héracles. Para o filósofo francês Gilles Deleuze, ele é o “homem sublime” que culminaria na teoria do “homem superior” de Nietzsche. Na obra do pensador alemão, cujas ideias são centrais em Dark, o homem superior levará a humanidade à perfeição. Ele já não precisa de um Deus, pois o que importa para ele são os valores do próprio homem. O ideal religioso é, portanto, substituído pelo conhecimento. Representação de Teseu, Jonas explora o labirinto ou a floresta, que simbolizam o próprio conhecimento.

A mão do menino Jonas em primeiro plano, conferindo o fio vermelho que está preso em uma argola de ferro, dentro da caverna.

De acordo com Deleuze, o fio de Ariadne simboliza a moralidade (os valores e a tradição), que seria um disfarce do ideal religioso. Em Dark, quem segura o fio da moralidade é Martha, cuja função de condutora da trama fica evidente na peça de teatro da escola. Em “Assim foi criado o mundo” (2017), Martha interpreta a personagem mítica e recita um monólogo importante, pois é narração da própria lenda. Ou seja, Martha é Ariadne, não apenas de forma simbólica.

Para pular do ideal religioso para o ideal moral, e deste para o conhecimento, seria necessário uma provação. Por exemplo, matar o touro (que simboliza o peso da vida e as amarras da tradição). Porém, ao mesmo tempo que derrota os monstros e decifra os enigmas, o homem superior ignora o enigma e o monstro que ele próprio é. No centro do labirinto, Jonas é Adam — o monstro “esperando nas sombras”, conforme diz Martha em seu monólogo. Ou seja, Jonas é tanto o herói quanto o vilão da história. Este é o assunto do próximo post.

Michael é Egeu, pai de Teseu

As relações de Jonas com Teseu são ainda mais profundas. No primeiro post, vimos que o herói, após matar o Minotauro e deixar o labirinto com a ajuda de Ariadne, parte com sua amada. Antes, ele prometera ao seu pai Egeu que trocaria as velas de sua embarcação, de pretas para brancas, caso derrotasse o monstro. Mas se esquece de fazer a troca e Egeu, ansioso pelo seu retorno, vê as velas pretas e pensa que o filho está morto. Inconsolável, ele se atira no mar.

A conclusão é que o destino dos personagens está interligado. Conforme revelou Martha na peça: um fio, vermelho como o sangue, liga todas as ações humanas. Jonas também a abandonou, embora tenha se empenhado em retornar para salvá-la. Outro exemplo da inevitabilidade do destino é a ideia que ele plantou na cabeça do pai, no desespero de evitar a sua morte. Mas a ideia acabou levando o homem a suicidar-se.

Sempre que tenta mudar os eventos a partir do passado, Jonas é impedido. Voltamos, portanto, ao eterno retorno de Nietzsche: aquilo que acontece é apenas repetição e não pode ser diferente do que já aconteceu. O mundo de Dark é o mundo do eterno retorno, pois não há lugar para a liberdade. As ações humanas não passam de um produto do devir cíclico do cosmos. O devir é o processo de transformação constante pelo qual todas as coisas passam. Em outras palavras, a lição é: não se pode escapar do destino. Como no roteiro da própria série, a história está escrita e os papeis, determinados.

Referências

Diálogo com Nietzsche: ensaios (2010), de Gianni Vattimo.

Dicionário de mitologia grega e romana (2011), de Pierre Grimal.

Dicionário básico de filosofia (1991), de Hilton Japiassu e Danilo Marcondes.

Mistério de Ariadne segundo Nietzsche (2006, p. 7-17), de Gilles Deleuze.

Como citar este artigo? (ABNT)

REIS FILHO, L. Jonas é Teseu no labirinto: a mitologia grega em Dark, Projeto Ítaca. Disponível em: https://projetoitaca.com.br/dark-jonas-e-teseu-no-labirinto/. Acesso em: 04/07/2022.

Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Historiador, professor e escritor. Tem Doutorado em Comunicação (Cinema e Audiovisual) e especialização em Estudos Clássicos.
Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Historiador, professor e escritor. Tem Doutorado em Comunicação (Cinema e Audiovisual) e especialização em Estudos Clássicos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Relacionado