Eternal Champions: desafio entre a vida e a morte

O Campeão Eterno, um ser onisciente, prevê o fim da humanidade. Isso vai ocorrer devido à morte prematura de certos indivíduos, antes destinados à grandeza. Então, a fim de restaurar o equilíbrio cósmico, ele reúne suas almas através do tempo, momentos antes de morrerem; mas só um deles terá sua vida de volta, caso vença um torneio de artes marciais. Assim, o vencedor não apenas recuperará sua existência, como também mudará seu destino e o de todo o universo. Os perdedores, por outro lado, encontrarão seu fim conforme a história determina. Essa é a premissa do jogo eletrônico Eternal Champions (1993), que, sem dúvida, deve muito à monumental saga literária do “Campeão Eterno” de Michael Moorcock. No entanto, veremos como ele se destacou com sua própria mitologia fantástica.

O diferencial de Eternal Champions

Eternal Champions é um jogo de luta da geração 16-bits, desenvolvido para o Sega Genesis em resposta à febre desse gênero que marcou a época. Ele surgiu, portanto, na onda de Street Fighter II (1991), Fatal Fury (1991) e Mortal Kombat (1992), todos de grande sucesso; mas, em contraste com seus antecessores, buscou identidade própria com características únicas e maior ênfase nos aspectos narrativos. Eternal Champions trouxe personagens de vários tempos, com armas, projéteis e campos de força, um modo de treinamento e “Overkills”, isto é, movimentos de finalização específicos. Além disso, ao invés de chegar primeiro para os fliperamas, foi pioneiro no lançamento direto para os consoles pessoais.

Em Eternal Champions, cada personagem tem ataques únicos, que o jogador executa de modos distintos. Para os comandos especiais, por exemplo, deve-se pressionar vários botões juntos. Se acaso o oponente receber vários danos consecutivos, ele ficará “tonto” e vulnerável a novos ataques. Fora isso, o jogo seguia o layout de seis botões comum ao gênero naquela época. Já os movimentos de finalização específicos, ou Overkills, dependiam de “pisar” em determinada área do cenário. No momento em que isso ocorria, algum elemento gráfico matava brutalmente o personagem.

A vida e a morte dos personagens

O jogador pode escolher até nove lutadores em Eternal Champions, cada qual de um tempo e com diferentes estilos de luta. Entre eles há ninjas, ciborgues, gângsteres e homens-das-cavernas. Alguns chamam a atenção logo de início, pois aparecem na arte de Julie Bell para a capa do jogo. Vamos conhecê-los, na ordem cronológica de sua existência terrena:

Slash

O bruto Slash era um caçador pré-histórico que viveu em 50.000 a.C. Ele foi condenado à morte pelos anciãos de sua tribo, que o temiam por sua inteligência.

Trident

Representante das antigas lendas de Atlântida, Trident era um ser artificial que seu povo criou como gladiador em 110 a.C. Seu nome deve-se à arma que tem no lugar de uma das mãos. Ele foi morto por um rival antes do Império Romano banir os atlantes para o mar, onde desapareceriam posteriormente.

Xavier

O alquimista e feiticeiro Xavier Pendragon, vítima da Inquisição, foi queimado vivo em 1692 durante os julgamentos das Bruxas de Salem, no norte dos Estados Unidos.

Jetta

Jetta Maxx era uma aristocrata russa disfarçada de acrobata de circo. Ela mergulhou para a morte em 1899, diante da plateia, depois que uma revolucionária sabotou seus equipamentos.

Larcen

Na Chicago dos anos 1920, Larcen Tyler era ladrão e gângster. Ele morreu vítima de uma explosão enquanto tentava plantar evidências no quarto de hospital de um líder mafioso rival.

Midknight

Em sua vida pregressa, Midknight foi um bioquímico brilhante que os Estados Unidos contrataram durante a Guerra do Vietnã. Depois que a exposição a produtos químicos o transformou em mutante (semelhante a um vampiro), ele passou a viver escondido no país asiático. Lá, encontrou seu fim pelas mãos de um caçador de vampiros, com o intuito de evitar que ele descobrisse a cura.

Shadow

Shadow Yamato era uma assassina ninja no Japão contemporâneo. Ela morreu 1993, quando seu empregador a lançou de um arranha-céu a fim de evitar a exposição de sua quadrilha.

Blade

Com seus óculos e braceletes high-tech, Blade era um caçador de recompensas sírio em 2030. Ele morreu durante uma operação secreta com o propósito de rastrear o terrorista que roubou um vírus letal.

R.A.X.

A sigla R.A.X. deu nome a um lutador cibernético americano que existiu no futuro, no ano de 2345. Seu treinador programou um vírus no software de seu exoesqueleto a fim de fazê-lo perder uma luta importante. Como resultado, ele morreu em combate.

Entre o Bem e o Mal

Em contraste com a maioria dos jogos de luta de sua época, não há em Eternal Champions personagens que sejam estritamente maus. Pelo contrário, a entidade cósmica os escolheu devido à bondade que lhes é inerente e ao potencial de mudar o curso da história. Vale dizer que a possibilidade de matar os duelistas não tem relevância em termos narrativos. Isso porque os Overkills – que se assemelham às “fatalities” de Mortal Kombat (pioneiro dos movimentos de finalização) – em nada impactam na história do jogo. Elas são, principalmente, um elemento extra para a diversão do jogador.

Além disso, ao concluir o jogo com determinados personagens, descobrimos que alguns deles se tornaram aliados ou amigos durante o torneio. O final de cada um abre um epílogo, que detalha não só como eles evitaram a morte, mas também como mudaram positivamente sua época.

O legado de Eternal Champions

Assim que Eternal Champions chegou às lojas, a Puffin Books lançou dois livros-jogos de aventura que expandem a franquia. O enredo trata de uma viagem no tempo com o propósito de derrotar a inteligência artificial Overlord e, finalmente, mudar o curso da história. Como em qualquer obra desse gênero – a exemplo da série Aventuras Fantásticas, de Steve Jackson –, o leitor podia escolher o destino do protagonista conforme avançava. O sucesso do jogo resultou em uma versão aprimorada para Sega CD, dois anos mais tarde: Eternal Champions: Challenge from the Dark Side. Hoje, o jogo original está disponível para download na Steam. Desde os anos 1990, no entanto, a franquia não ressuscitou.

Referências

“Whatever Happened to Eternal Champions?” (Gamegrin, 12/09/2021), por Andrew Duncan. Em: https://www.gamegrin.com/articles/whatever-happened-to-eternal-champions/

“Eternal Champions” (The Fighters Generation), em: https://fightersgeneration.com/games/eternal-champions.html

Como citar este artigo? (ABNT)

REIS FILHO, L. Eternal Champions: desafio entre a vida e a morte, Projeto Ítaca. Disponível em: https://projetoitaca.com.br/eternal-champions-desafio-entre-a-vida-e-a-morte/. Acesso em: 23/04/2024.

Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Lúcio Reis Filho é Ph.D. em Comunicação (Cinema e Audiovisual), escritor e cineasta especializado nas interseções entre Cinema, História e Literatura, com foco nos gêneros do horror e da ficção científica. Historiador com especialização em Estudos Clássicos pela Universidade de Brasília, em parceria com a Cátedra Unesco Archai (Unb/Unesco), é Coordenador do Projeto Ítaca. Seus interesses acadêmicos e de pesquisa são essencialmente interdisciplinares; abrangem Cinema, Artes Visuais, História, Literatura Comparada e Estudos da Mídia. Escreve periodicamente resenhas de livros, filmes e jogos para diversas publicações.
Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Lúcio Reis Filho é Ph.D. em Comunicação (Cinema e Audiovisual), escritor e cineasta especializado nas interseções entre Cinema, História e Literatura, com foco nos gêneros do horror e da ficção científica. Historiador com especialização em Estudos Clássicos pela Universidade de Brasília, em parceria com a Cátedra Unesco Archai (Unb/Unesco), é Coordenador do Projeto Ítaca. Seus interesses acadêmicos e de pesquisa são essencialmente interdisciplinares; abrangem Cinema, Artes Visuais, História, Literatura Comparada e Estudos da Mídia. Escreve periodicamente resenhas de livros, filmes e jogos para diversas publicações.

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