Lou Reed e o complexo de Édipo

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Lou Reed, portrait, Amsterdam, Netherlands, 1972. (Photo Gijsbert Hanekroot/Redferns)

Um evento em particular marcou a personalidade e toda a carreira de Lou Reed (1942-2013). Não um evento qualquer, mas um trauma. Aos 17 anos, seus pais o submeteram à terapia de eletrochoque com o intuito de curá-lo da homossexualidade e da instabilidade emocional. Esse era um ato de amor para os conservadores Sidney e Toby Reed, pois na época a homossexualidade era vista como um desvio ou perversão. Não surpreendentemente, o filho nutriu profundo rancor e passou a ver em seus pais agentes de punição e reclusão. O complexo de Édipo que Lou Reed manifestou na vida adulta também está enraizado na sua juventude. Antes de entender essa ideia e sua relação com a mitologia, vejamos um pouco da vida e da obra desse músico, compositor, cantor e poeta norte-americano.

A paixão pelo rock

Em cinco décadas de carreira solo, Lou Reed teve entre seus colaboradores nomes como Nico, John Cale, Mick Ronson e David Bowie. Ele se destacou pela voz monótona e por suas letras poéticas e transgressoras. No entanto, muito de sua fama deve-se ao trabalho como guitarrista, compositor e vocalista da The Velvet Underground. A banda de art-rock novaiorquina foi a mais influente dos anos 1960 e ficou na estrada até 1973.

Lou sempre teve a ambição de se tornar um astro do rock. Aliás, foi o rock quem o salvou da adolescência, afetada pela terapia de eletrochoque. Esse gênero musical, sua verdadeira paixão, surgiu para ele no momento em que escrevia suas primeiras canções. Conforme ia moldando sua identidade, Lou chegava cada vez mais perto de se tornar um roqueiro dos anos 1960.

De fato, ser membro de uma banda de rock no fim daquela década era a coisa mais descolada que alguém podia fazer. A imagem do esquisitão solitário, que Lou adotou, era a marca registrada do homem descolado do submundo de Nova York. Ele era um astro perfeito para a nova era do rock, no momento em que os músicos começavam a ter um visual bem diferente. Além disso, Lou tinha atitude de roqueiro. Sua tendência à rebeldia era constante, pois o padrão “classe média” de sua vida o perturbava.

Foi o músico Bob Dylan, outro dos nossos “heróis do rock“, quem exerceu grande influência sobre Lou. Não só mostrou a ele um jeito de escrever letras, como também deu à figura do cantor-compositor autoridade intelectual. (Em 2016, Dylan foi laureado com o Nobel). Lou se considerava à frente de seu tempo. De certa forma, ele realmente antecipou as décadas de 60 e 70, pois movia-se na fronteira de duas gerações.

Um espírito atormentado

No início da carreira, Lou Reed se vendeu como uma alma torturada, introspectiva e romântica, analogamente à dos poetas franceses Rimbaud (1854-1891) ou Baudelaire (1821-1867).

De acordo com seus colegas de banda, Lou era um sujeito neurótico e bastante egocêntrico. O biógrafo Victor Bockris o descreveu como narcisista, hiperativo e fragmentado, com a mente complexa e paranoica. Por ser assim, bem como pelas suas crises de identidade, muitas vezes chegou ao limite. Ele também era melancólico, o que, de acordo com Bockris, era sinal de um mundo interior cheio de vida.

Entre janeiro e abril de 1966, o músico despontou como o criador de um rock poético e inteligente sobre drogas, sexo “anormal” (isto é, fora dos padrões aceitos na época), violência e suicídio. Esse foi seu auge à frente da Velvet Underground. A banda era, então, gerenciada pelo ícone da Pop Art Andy Warhol, talvez a maior influência em sua vida.

Posteriormente, no início de 1968, Lou ganhou os holofotes da banda com suas explorações poéticas de um espírito atormentado por obsessão e culpa. Este é um tema do mito de Édipo, tanto quanto a difícil relação com a família. Ambos compõem a imagem que Lou construiu para si. Um resumo da lenda ajuda a entender melhor essa analogia.

A tragédia como destino

Um adivinho alertou o rei Laio de Tebas que ele nunca deveria ser pai, pois do contrário seria morto pelo próprio filho. Mas, dominado pelo desejo depois de uma bebedeira, Laio deitou-se com Jocasta e eles tiveram um filho, que batizaram de Édipo.

Com medo da maldição, o rei deu o filho a um servo e o instruiu que abandonasse o bebê na encosta da montanha, e ali o deixasse morrer. No entanto, uma família de pastores achou Édipo e cuidou dele, dando-lhe em seguida ao rei Pólibo e à rainha Mérope de Corinto, que não tinham filhos.

Édipo cresceu feliz, mas certo dia ouviu rumores de que não era filho de seus pais. Seguiu então para Delfos, onde perguntou ao oráculo a verdade. Lá, descobriu que mataria o pai e se casaria com a própria mãe. Perturbado com a ideia de que poderia causar mal aos pais adotivos, Édipo fugiu para Tebas, sem saber que ali vivia sua família biológica.

Na estrada para Tebas, Édipo se deparou com um nobre que lhe mandou sair da frente, pois queria passar. Então, discutiu com o homem e o matou, mas aquele era o rei Laio, seu pai, e ele não sabia disso. Quando se apaixonou por Jocasta, viúva do rei, Édipo também não sabia que ela era sua mãe. Assim, mesmo contra a sua vontade, a profecia se concretizou.

Édipo Rei e Édipo Reed

Mas qual a relação de Lou Reed com o complexo de Édipo? Em primeiro lugar, devemos entender esse conceito, que vem da psicanálise. A fama do personagem se deve, acima de tudo, à interpretação do mito feita por Sigmund Freud (1856-1939), que chocou o mundo com suas teorias do inconsciente. Conforme explica, as pessoas agem de acordo com “partes” da personalidade de que elas não têm conhecimento. A sua teoria do complexo de Édipo foi especialmente perturbadora para a época, mas ganhou fama e ainda persiste na cultura popular. Vamos entender essa ideia.

Em toda a família, o filho subconscientemente deseja “possuir” a mãe — seu primeiro amor de infância — e tirar o pai do centro dos afetos dela. De acordo com Freud, em A interpretação dos sonhos (1900), Édipo é o vitimador e não mera vítima do Destino, que tanto ele quanto o pai tentaram evitar. Nesse sentido, ele cumpre o impulso de infância de todos os machos: matar o pai para se deitar com a mãe. O complexo de Édipo seria normal na infância, mas neurótico quando transportado para a vida adulta, mesmo que nunca seja cumprido.

O personagem vem da peça “Édipo Rei” (c. 430 a.C.), do dramaturgo Sófocles, e talvez seja um dos mais conhecidos das lendas gregas. Não apenas pela sua tragédia, mas por ter entrado na cultura popular quase como metáfora das relações familiares penosas e violentas. Essa é a analogia entre Lou Reed e o complexo de Édipo, conceito que nasceu do mito. O músico não se dava bem com os pais, conforme vimos, e acabou caindo naquilo que seu biógrafo chama de “fantasias edipianas”.

Fantasias edipianas

Para o músico e colega de banda John Cale, os melhores trabalhos de Lou surgiram em reação a seus pais. Muitas vezes, ele escreveu canções sobre violência doméstica e incesto, que chocavam seus amigos e parentes. Nelas, seus grandes alvos eram seus pais, por motivos óbvios. No entanto, o retrato que fazia deles estava de longe de ser verdade, pois Toby e Sidney adoravam um ao outro. A única coisa que poderia ter enfurecido Sidney era a crueldade do filho com sua esposa.

De acordo com Bockris, foi o single “Mother” (1971), de John Lennon, que despertou Lou musicalmente. Ele resumia muito do que o músico tentava expressar desde sua primeira prosa, na qual sua mãe o seduzia. Para o biógrafo, não é possível entender a história de Lou a menos que se tenha em mente o lado mais vulnerável de sua personalidade. As raízes do problema estariam na confusa percepção de si próprio como um homossexual, embora desesperadamente decidido a ser hétero. Isso deve-se à mentalidade dos anos 1950, sob a qual crescera, e à delicada relação com a mãe, de quem sentia nunca ter recebido atenção suficiente.

Enfim, na obra de Lou Reed o complexo de Édipo (como neurose) era um tema frequente, assim como outros problemas que vem do seio familiar. O músico tinha relações problemáticas com seu passado e com os pais. Na dinâmica de amor e ódio dessas relações, as “fantasias edipianas” davam sinais de uma vida interior turbulenta e profunda. Tais fantasias, de acordo com Bockris, são próprias de Édipo.

Ao mesmo tempo, Lou era livre para explorar sua identidade sexual. No fim de 1971, o músico foi a Londres. Na atmosfera tolerante da capital britânica, onde seu trabalho era muito apreciado, as novas gerações de astros do rock encabeçadas por Bowie receberam-no como um herói.

Referências

O livro da mitologia (2018), por vários autores.

Transformer: A história completa de Lou Reed (2016), de Victor Bockris.

A interpretação dos sonhos (2019), de Sigmund Freud.

Para ler mais sobre o tema Destino: O eterno retorno em Dark (série da Netflix)

Como citar este artigo? (ABNT)

REIS FILHO, L. Lou Reed e o complexo de Édipo, Projeto Ítaca. Disponível em: https://projetoitaca.com.br/lou-reed-e-o-complexo-de-edipo/. Acesso em: 03/07/2022.

Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Historiador, professor e escritor. Tem Doutorado em Comunicação (Cinema e Audiovisual) e especialização em Estudos Clássicos.
Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Historiador, professor e escritor. Tem Doutorado em Comunicação (Cinema e Audiovisual) e especialização em Estudos Clássicos.

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