O Inferno de Thanos em Guerra Infinita

Aproveitando o sucesso mundial de Vingadores: Guerra Infinita (2018), da Marvel, vamos comparar a busca do vilão Thanos pelas Joias do Infinito à descida ao inferno em Divina Comédia. Inegavelmente uma das grandes obras da literatura, esse poema do italiano Dante Alighieri inspira a cultura popular há séculos, pela sua variedade de temas e personagens.

Sobre a Divina Comédia

É o começo da primavera de 1300. Dante vaga por uma floresta sombria, perdido e sozinho. Com o propósito de sobreviver a essa provação, ele precisa visitar os três reinos da vida após a morte. O primeiro deles é o Inferno. Conforme atravessa os nove círculos infernais, em sua jornada pela morada eterna das almas perdidas, Dante vai se aproximando do abismo no centro da terra.

Dividida em três partes – “Inferno”, “Purgatório” e “Paraíso” – a Divina Comédia funciona como alegoria da jornada da alma em direção a Deus. A história é bem conhecida e traz uma visão de mundo medieval, dominada, portanto, pelo pensamento teológico cristão. Seu narrador é o próprio Dante, que escolheu como guia o poeta clássico Virgílio (70-19 a.C.), de todos seu favorito. Famoso pelo épico Eneida, Virgílio viveu na Roma de Júlio César e Augusto, no momento em que a República se transformava em Império.

A busca pelas Joias do Infinito

No aclamado terceiro filme dos Vingadores, o tirânico Thanos (Josh Brolin) segue em sua busca implacável pelas Joias do Infinito. Sozinho a maior parte do tempo, o vilão salta de mundo em mundo para conquistar essas joias cósmicas. Afinal, dotadas de poderes supremos, elas são capazes de destruir todo o universo por quem as equipar em conjunto.

No momento em que descobre o paradeiro da “Gema da Alma” em Vormir (aparentemente, um corpo planetário interdimensional do multiverso), depara-se com um panorama sublime de terras áridas e céu nebuloso. A concepção desse ambiente criado por computação gráfica deve muito à representação do Inferno por Gustave Doré. De fato, as ilustrações desse artista francês, feitas no século XIX, definem até hoje a nossa visão da obra de Dante.

A provação de Thanos

No mundo desconhecido, quem recebe Thanos é o Guardião da Gema (Ross Marquand), cujo dever é instruir quem procura pela misteriosa joia. Tal qual Virgílio no poema de Dante, o Guardião age como um psicopompo, um guia que orienta espontaneamente o personagem a fim de conduzi-lo em sua jornada. Mas, como Thanos logo percebe, a joia da Alma requer um sacrifício. A provação consiste em livrar-se do último traço de humanidade que ainda lhe resta, por meio de uma barganha ao estilo do Fausto de Goethe. A essa altura, todos que viram o filme sabem o que isso significa.

Leia mais sobre a Divina Comédia

Danteworlds, apresentação multimídia sobre a obra de Dante criada por Guy Raffa, da Universidade do Texas. (em inglês)

The World of Dante, ferramenta de pesquisa multimídia para facilitar o estudo da Divina Comédia, elaborado pelo Institute for Advanced Technology in the Humanities da Universidade de Virgínia. (em inglês)

Como citar este artigo? (ABNT)

REIS FILHO, L. O Inferno de Thanos em Guerra Infinita, Projeto Ítaca. Disponível em: https://projetoitaca.com.br/o-inferno-de-thanos/. Acesso em: 23/04/2024.

Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Lúcio Reis Filho é Ph.D. em Comunicação (Cinema e Audiovisual), escritor e cineasta especializado nas interseções entre Cinema, História e Literatura, com foco nos gêneros do horror e da ficção científica. Historiador com especialização em Estudos Clássicos pela Universidade de Brasília, em parceria com a Cátedra Unesco Archai (Unb/Unesco), é Coordenador do Projeto Ítaca. Seus interesses acadêmicos e de pesquisa são essencialmente interdisciplinares; abrangem Cinema, Artes Visuais, História, Literatura Comparada e Estudos da Mídia. Escreve periodicamente resenhas de livros, filmes e jogos para diversas publicações.
Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Lúcio Reis Filho é Ph.D. em Comunicação (Cinema e Audiovisual), escritor e cineasta especializado nas interseções entre Cinema, História e Literatura, com foco nos gêneros do horror e da ficção científica. Historiador com especialização em Estudos Clássicos pela Universidade de Brasília, em parceria com a Cátedra Unesco Archai (Unb/Unesco), é Coordenador do Projeto Ítaca. Seus interesses acadêmicos e de pesquisa são essencialmente interdisciplinares; abrangem Cinema, Artes Visuais, História, Literatura Comparada e Estudos da Mídia. Escreve periodicamente resenhas de livros, filmes e jogos para diversas publicações.

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