O que é o monstro Hyde em Wandinha?

Na série Wandinha, da Netflix, a filha mais velha da Família Addams acaba em um instituição para adolescentes problemáticos. Lá, conhece excluídos da sociedade, assim como ela, e descobre que são seres lendários, daqueles que existem há séculos na mitologia. No entanto, todos sofrem com o preconceito da conservadora cidade de Jericho. Para piorar, misteriosos assassinatos põem a sociedade contra eles. Afinal, há relatos de uma criatura que ronda o colégio, que muitos creem ser um dos alunos. Vamos descobrir o que é o monstro Hyde em Wandinha e suas origens na literatura de horror!

ATENÇÃO: ESTE ARTIGO CONTÉM SPOILERS!

Os misteriosos assassinatos

A Escola Nunca Mais é uma instituição para adolescentes problemáticos, cujas questões, no entanto, vão muito além daquelas que afetam as pessoas “normais”. A princípio, os alunos da Escola são adolescentes como quaisquer outros – com medos, desejos e sonhos –, exceto pelos seus poderes, perigosos e imprevisíveis. Afinal, há entre eles lobisomens, vampiros e górgonas. E, justamente por serem “diferentes”, viram o centro das atenções quando estranhas mortes começam a ocorrer na cidade de Jericho.

O novo lar de Wandinha é cheio de mistérios, como o dos corpos desmembrados e despedaçados que surgem na mata. A garota apática e inteligente eventualmente descobre que o horror é obra de um monstro notívago., que ronda a Escola. Daí em diante, especula-se que seja um dos alunos, que se tornam os principais suspeitos da polícia de Jericho. A identidade do assassino finalmente vem à tona nos últimos da primeira temporada: ele é um monstro Hyde.

O que é o monstro Hyde?

Wandinha decide investigar os crimes por conta própria, enquanto mergulha nos segredos de sua própria família. Por fim, descobre que o assassino brutal é um monstro Hyde, forma grotesca que assume o bonito Tyler Galpin (Hunter Doohan), seu interesse romântico. Esse nome vem da noveleta O médico e o monstro (1886), do autor escocês Robert Louis Stevenson. Nesse clássico da literatura gótica, o Sr. Hyde é o alter ego maligno e violento do Dr. Jekyll. Assim como Tyler é um barista durante o dia e um monstro à noite. O Hyde é, portanto, o lado sombrio desse personagem, o que reforça a relação com a literatura.

Os duplos na mitologia

Edward Hyde é o doppelgänger imoral do Dr. Jekyll, isto é, seu duplo maligno. Este que, em síntese, significa “dois em um”, surgiu no século XVIII com as representações dos alter egos sombrios. Ainda que não sejam invenções modernas, pois há inúmeros duplos na mitologia e na religião, foi na Alemanha de finais do século XVIII que o conceito se estabeleceu. Dali em diante, migrou para várias culturas.  

Na mitologia, os duplos são figuras que provocam confusão, ao mesmo tempo que evocam os conceitos platônicos da multiplicidade/dualismo do homem original. Essa ideia é evidente na teoria da formação dos gêneros, nos gêmeos míticos ou em figuras como Janus, o deus romano de duas faces.

As origens de Hyde na literatura

A inspiração para Hyde veio de um personagem histórico real: o diácono escocês William Brodie (1741-1788), cidadão exemplar durante o dia e assaltante de lares de classe média à noite. Também nasceu dos sonhos de Stevenson, que o levaram a escrever, em pouco tempo, o rascunho da sua noveleta. A influência de O médico e o monstro é inegavelmente grande. Sua permanência na cultura deve-se sobretudo à narrativa de tensão e mistério que o autor criou na Londres vitoriana.

No fim da história, Jekyll confessa que Hyde é produto de experiências com o propósito de separar a natureza dual do homem. Suas palavras apontam para a dupla identidade: “(…) comecei a ocultar os meus prazeres. De tal forma isso se deu que, quando cheguei à idade de reflexão e me olhei para avaliar minha posição e meu progresso no mundo, me descobri comprometido com uma profunda duplicidade de vida” (1994, p. 79). Assim sendo, Hyde é a personificação das facetas da personalidade de Jekyll que ultrajavam a sociedade da época. Isto é, a violência, a libertinagem sexual e o egoísmo.

O monstro Hyde na cultura pop

De acordo com Lance Eaton, a primeira adaptação do livro de Stevenson teria sido a peça Dr. Jekyll and Mr. Hyde (1887), no teatro de Boston. No cinema, há evidências de vários curtas-metragens nos anos 1900, embora nenhum desses filmes tenha chegado aos nossos dias. Já o primeiro longa-metragem, filme mudo de John S. Robertson, estreou em 1920. Depois dele viriam mais de 60 adaptações para o cinema e para a televisão, muitas das quais pressupõem que o público sabe a real identidade de Jekyll.

Por vezes, deixou-se de lado a relação entre as duas faces de mesmo homem. O foco então recaiu sobre o monstro Hyde, cuja maldade aumentou, assim como o número de assassinatos ou violências sexuais que comete. A questão passou a ser o quão longe ele pode chegar antes de Jekyll conseguir pará-lo. Nesse sentido, filmes como Clube da Luta (1999) e A Janela Secreta (2004) são releituras que focam na revelação de quem o monstro realmente é. Esse também é o caso de Wandinha.

A dupla personalidade e o monstro adormecido

A ideia de O médico e o monstro funciona como metáfora da dupla personalidade, que eventualmente traz conotações de psicopatia. Serial killers da vida real, como Jeffrey Dahmer (1960-1994) e Ted Bundy (1946-1989) evocam comparações nesse sentido. Assim como Hannibal Lecter e Dexter Morgan, embora o lado monstro desses assassinos da ficção nunca se materialize explicitamente. Já em Wandinha, como na literatura e muitas adaptações, Tyler de fato assume a forma do monstro Hyde.

Na série, o Hyde é um mutante com um lado monstruoso adormecido. Até um evento traumático despertá-lo, o que também ocorre por indução química ou hipnose. Ele não é o vilão da história; é mais um capanga sob o controle do real vilão. Assim sendo, aproxima-se dos zumbis da religião afro-caribenha do vodu, que eram comandados por um sacerdote. Já a sua aparência é animalesca, como a de um lobisomem deformado. Além de seus hábitos noturnos, isso nos faz ter dúvidas em relação à sua identidade, pois há lobisomens entre os alunos da Escola Nunca Mais.

Até certo ponto, Wandinha não sabe se o monstro Hyde é um assassino irracional ou consciente de seus crimes. Depois que Tyler mostra a sua verdadeira face, no entanto, as coisas ficam mais claras. A forma monstruosa seria mais uma extrapolação de sua personalidade, isto é, uma versão pior de um garoto consciente do seu lado mau. Isso parece claro no fim da temporada, quando o garoto, em forma humana, confronta Wandinha e diz que ela nunca conseguirá associá-lo aos seus crimes.

Referências

The Ashgate Encyclopedia of Literary and Cinematic Monsters (2014), de Jeffrey Andrew Weinstock (ed.).

O médico e o monstro (1886), de Robert Louis Stevenson. (Coleção Selo Negro, FTD, 1994).

Como citar este artigo? (ABNT)

REIS FILHO, L. O que é o monstro Hyde em Wandinha?, Projeto Ítaca. Disponível em: https://projetoitaca.com.br/o-que-e-o-monstro-hyde-em-wandinha/. Acesso em: 29/05/2024.

Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Lúcio Reis Filho é Ph.D. em Comunicação (Cinema e Audiovisual), escritor e cineasta especializado nas interseções entre Cinema, História e Literatura, com foco nos gêneros do horror e da ficção científica. Historiador com especialização em Estudos Clássicos pela Universidade de Brasília, em parceria com a Cátedra Unesco Archai (Unb/Unesco), é Coordenador do Projeto Ítaca. Seus interesses acadêmicos e de pesquisa são essencialmente interdisciplinares; abrangem Cinema, Artes Visuais, História, Literatura Comparada e Estudos da Mídia. Escreve periodicamente resenhas de livros, filmes e jogos para diversas publicações.
Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Lúcio Reis Filho é Ph.D. em Comunicação (Cinema e Audiovisual), escritor e cineasta especializado nas interseções entre Cinema, História e Literatura, com foco nos gêneros do horror e da ficção científica. Historiador com especialização em Estudos Clássicos pela Universidade de Brasília, em parceria com a Cátedra Unesco Archai (Unb/Unesco), é Coordenador do Projeto Ítaca. Seus interesses acadêmicos e de pesquisa são essencialmente interdisciplinares; abrangem Cinema, Artes Visuais, História, Literatura Comparada e Estudos da Mídia. Escreve periodicamente resenhas de livros, filmes e jogos para diversas publicações.

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