Rei do Candomblé: a história de Joãozinho da Goméia

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João Alves Torres Filho foi um pai de santo baiano que nasceu em 27 de março de 1914 e morreu em 19 de março de 1971. Sua trajetória como liderança do Candomblé Caboclo/Angola teve início no dia 21 de dezembro de 1930, quando fizeram dele filho de santo do sacerdote Severiano Manoel de Abreu, o Jubiabá. O título lhe marcou tão positivamente que, até ser reverenciado como Rei do Candomblé, o status da filiação foi sua marca nos jornais de maior circulação do Brasil.

Graças a essa relação com a imprensa, portanto, Joãozinho foi adquirindo poder e prestígio a ponto de ser notícia quase todos os dias em revistas como O Cruzeiro e Manchete. De 1936 a 1971, Pai João dirigiu dois prestigiados terreiros. O primeiro ficava na Rua Direta da Goméia no bairro de São Caetano em Salvador-Bahia. O segundo ficava na Rua General Rondon, no município de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro.

A liberdade de culto ameaçada

Em 1936, Joãozinho da Goméia foi importante colaborador dos preparativos para o II Congresso Afro-Brasileiro. Quem organizou o evento foi o jornalista e estudioso do folclore Edson Carneiro, em 1937, com o intuito de divulgar os estudos de antropólogos, sociólogos e folcloristas interessados no negro brasileiro e no candomblé.

O evento reuniu não apenas intelectuais, como também pais e mães de santo que pediam ao Estado a liberdade de culto aos praticantes de candomblé. Isso porque eles eram covardemente perseguidos e violentados por prisões e fechamentos de terreiros. Um dos terreiros baianos de candomblé que mais sofreu foi o de Severiano Manoel de Abreu. Mas, curiosamente, os dois terreiros de Joãozinho nunca passaram por isso. Talvez, por causa de sua estreita relação com chefes de polícia, delegados, oficiais de alta patente das forças armadas e políticos importantes.

A prisão do pai de santo

O cenário conflituoso no Rio de Janeiro da primeira metade do século XX gerou um acervo de objetos rituais apreendidos pela polícia. (Em 2020, eles retornaram ao povo de santo através da Campanha “Liberte o nosso sagrado”). No entanto, apesar de “boas relações de amizade” com as esferas do poder, o pai de santo já conhecido como Rei do Candomblé foi preso e deportado para Salvador. Isso ocorreu no auge das apreensões em 1942, em uma visita ao Rio de Janeiro. Ele retornaria em definitivo em 1949, instalando seu terreiro em Duque de Caxias em 1951.

Entre 1949 e 1951, foram muitas idas e vindas entre Rio e Salvador. Bem como visitas a terreiros de Curitiba, Pernambuco, São Paulo e Vitória, no Espírito Santo. A inauguração da “Nova Goméia” foi festejada e divulgada nos jornais Correio da Manhã e Última Hora, demarcando ainda mais os poderes do Rei do Candomblé.

Seu Pedra Preta, o caboclo

Até 1949, a imprensa tratou Joãozinho como “João da Pedra Preta”, que era o nome do espírito do Caboclo que ele incorporava. Seu Pedra Preta era um caboclo originário do Rio Grande do Norte. De acordo com relatos do Oluô Agenor Miranda Rocha, era um caboclo do orixá Obaluaê/Omulu, que atua na cura das doenças físicas e espirituais. Seu Pedra Preta curava doenças, e muita gente o procurava por este motivo. Curava com passes e com ervas em rituais sagrados não divulgáveis pelos jornais.

Conforme Joãozinho ia ganhando fama transnacional, o caboclo ia perdendo espaço em sua vida. Isso agrava consideravelmente os problemas que começam a acontecer, os quais, por conseqüência, comprometem a própria relação amistosa do pai de santo com artistas, jornalistas e políticos.

De acordo com as fotografias dos jornais nos dias de festas, o orixá e o caboclo dançavam um do lado do outro, confirmando a relação entre os dois. As entrevistas de Joãozinho nesses dias eram narrativas que falavam não só de sua feitura, mas também das mitologias dos orixás. Muitas delas fiéis à tradição da oralidade nagô-yorubá, e muitas inventadas pelo pai de santo para justificar especificidades do seu candomblé.

A cerimônia do Lorogun

O Lorogun é interessante, pois mostra como o Rei do Candomblé construía narrativas a fim de atrair público para seu terreiro, e de se tornar assíduo na imprensa. O Lorogun é uma cerimônia ritual realizada antes da Semana Santa, no primeiro domingo depois do Carnaval. Ela se despede dos orixás que partiam pra África e lá ficavam até o fim da Quaresma, onde guerreavam para resolver questões individuais.

Joãozinho, então, criou o mito da GUERRA DOS ORIXÁS NO REINO DOS ENCANTADOS. Enquanto os terreiros ficavam fechados por causa da Quaresma, ocorria uma guerra na qual caboclos tentavam destruir o reino dos Orixás e tomar o poder.

O legado de Joãozinho

Em 21 de dezembro de 1955, Joãozinho foi coroado em seu terreiro. O evento, que ficou conhecido como “Jubileu de prata da Goméia”, comemorou os 25 anos do sacerdócio à frente do candomblé.

De 1955 até 1971, ano da sua morte, a trajetória de Joãozinho da Goméia foi marcada pelo poder político de negociar status e prestígio com todas as esferas da sociedade. Desse modo, Joãozinho se tornou uma liderança negra fundamental para se pensar como o negro lutou no pós-abolição da escravatura. Isto é, como lutou para ser inserido por uma “república” que criou várias estratégias e artimanhas de embranquecimento da sociedade brasileira. Estas negaram a influência positiva que pessoas de pele preta tiveram para o crescimento de um país marcado pela mácula da escravidão.

Joãozinho da Goméia é hoje um símbolo de luta contra o racismo religioso que atinge em cheio o cotidiano de afro-religiosos da Baixada Fluminense. Afinal, essa população continua sendo negligenciada por um Estado que ainda não se entendeu como protetor, mas sim como opressor.

Recomendações de leitura:

Andréa Nascimento

Andréa Nascimento

Mestranda em História Contemporânea pela Universidade Federal Fluminense (Niterói, Rio de Janeiro) e pesquisadora da trajetória social do babalorixá Joãozinho da Gomeia desde 2001.
Andréa Nascimento

Andréa Nascimento

Mestranda em História Contemporânea pela Universidade Federal Fluminense (Niterói, Rio de Janeiro) e pesquisadora da trajetória social do babalorixá Joãozinho da Gomeia desde 2001.

Uma resposta

  1. Muito boa reportagem; um trabalho meritório a ser divulgado
    para conhecimento de muita gente que ainda não entendeu o significado do Candomblé.

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