Os Mitos de Cthulhu: a pseudomitologia de Lovecraft

A vida, a obra e o pensamento de Howard Phillips Lovecraft (1890-1937) formam uma unidade filosófica inegavelmente rara. Ao longo de sua carreira, o escritor concebeu uma visão de mundo sombria, que reduz o ser humano à sua pequenez no cosmos e nos assombra com o medo do desconhecido. Nos anos de 1920 e 1930, deu vida à parte mais importante de sua obra, os chamados “Mitos de Cthulhu“.

Os contos de horror de Lovecraft são filhos da ciência moderna, cujas indagações abriram caminho para a ficção científica. Segundo Florent Montclair, o escritor norte-americano deu novos ares à literatura fantástica com seus Mitos de Cthulhu, que têm aspectos de uma demonologia, isto é, o estudo dos demônios. Em The King of Weird (1996), Joyce Carol Oates definiu essa obra como uma “inversão irônica da fé religiosa tradicional”. Nela, conforme explicou,

não há “deuses”, mas apenas seres extraterrestres deslocados, os Grandes Anciões, que viajaram para a Terra há milhões de anos (…). Os seres humanos, iludidos, os confundem (…) com deuses, adorando-os por ignorância.

Lovecraft em 1934.

Não por acaso, alguns chamam os Mitos de Cthulhu de “pseudomitologia” (ou “anti-mitologia”). O termo é de David E. Schultz, e sua base é uma inversão do princípio religioso. Isso porque, se toda mitologia forja uma conexão vital entre os deuses e os seres humanos, foi essa conexão que Lovecraft buscou subverter. Vamos explorar essa ideia a partir dos próprios Mitos, ou seja, tanto na obra de Lovecraft quanto no legado que ele deixou.

A origem dos Mitos de Cthulhu

“O Grande Ancião”. Arte de Chun Lo.

O biógrafo S.T. Joshi faz três observações importantes. Em primeiro lugar, “Mitos de Cthulhu” (Cthulhu Mythos) não é um termo de Lovecraft. Foi seu amigo e discípulo de letras August Derleth (1909-1971) quem o cunhou. Ele foi um entre tantos escritores que trabalharam para expandir o universo ficcional de Lovecraft, tanto em vida, quanto depois da sua morte. Mas, é claro, alguns tiveram mais sucesso do que outros.

Derleth, por sua vez, cometeu erros de interpretação que resultaram na simplista luta do Bem contra o Mal. Fez isso a fim de harmonizar uma visão sombria às suas próprias crenças, pois era católico praticante e não tolerava o ateísmo de Lovecraft. Para Derleth, os “Anciões” eram deuses maus, banidos da Terra numa época remota, com o propósito de retomar seus domínios e destruir a raça humana. Do outro lado, havia os benevolentes “Deuses Anciões”.

A visão de Lovecraft é muito menos otimista. A humanidade não ocupa um lugar no centro do cosmos, e ninguém a protegerá contra os seres que, de tempos em tempos, vêm causar devastação. Os “deuses” dos Mitos não são deuses de fato, mas alienígenas que manipulam seus seguidores humanos para seus próprios fins. Eles não têm um compasso moral, não são bons ou maus. Enfim, a noção de guerra cósmica não existe em seus contos.

O cosmicismo e os seres do espaço

Em segundo lugar, classificar os contos de Lovecraft é problemático, pois eles não cabem em caixinhas. Separá-los dessa maneira é um exercício limitante que nunca deu certo. Isso porque a função dos Mitos de Cthulhu era transmitir a mensagem filosófica de seu criador, cuja essência é o cosmicismo. Esta, aos olhos de Lovecraft, era a perspectiva de sua obra como um todo, conforme escreveu a Farnsworth Wright em julho de 1927:

todos os meus contos baseiam-se na premissa fundamental de que as leis humanas e os interesses e emoções comuns não têm significado na vastidão do cosmos.

De acordo com Joshi, o trecho acima evoca uma convenção da ficção científica: os extraterrestres. Lovecraft, no entanto, subverteu uma forma de representação comum em Edgar R. Burroughs, Ray Cummings e outros. Isto é, a imagem dos seres do espaço como humanoides – não só em aparência, mas também nos costumes, na psicologia e nos meios de se comunicar. A fim de fugir dessa convenção, que “humaniza” os extraterrestres, Lovecraft criou seres híbridos, ou sem forma definida, e com nomes quase impronunciáveis.

“Cthulhu” (1934), por H.P. Lovecraft. Brown University Library.

Quanto ao cosmicismo, a influência do britânico H. G. Wells (1866-1946) parece clara. O embate com extraterrestres, base para “A cor que caiu do espaço” (1927), “O horror em Dunwich” e “A sombra sobre Innsmouth” (1931), viria, mais especificamente, de Guerra dos Mundos (1897). O próprio Cthulhu lembra os marcianos de Wells, feitos de cérebro e tentáculos, embora mescle traços de “um polvo, um dragão e uma caricatura humana” (“O Chamado de Cthulhu“, 1926).

Em ambos os casos, os extraterrestres são formas de vida ancestrais, parte da história do universo. Enquanto metáforas, representam um mundo antigo que devora outro mais jovem no ápice do progresso tecnológico, o que leva ao colapso da civilização.

Os elementos básicos dos Mitos

Em terceiro lugar, o que chamamos de Mitos de Cthulhu não se refere aos contos em si, nem à filosofia por trás deles. Seria, na verdade, um conjunto de recursos narrativos que Lovecraft empregou, com o propósito de transmitir sua visão de mundo sombria. Joshi os dividiu em quatro grupos, que reúnem os elementos básicos do “Ciclo de Cthulhu”:

a) os seres do espaço e seus cultos (clique para saber mais);

b) a biblioteca de livros, manuscritos e documentos com dados sobre tais seres;

c) os lugares Nova Inglaterra, uma constelação de cidades imaginárias onde muitos dos contos se passam;

d) a perspectiva “cósmica”, que reduz os seres humanos e toda a vida terrestre à sua insignificância no cosmos.

Os elementos dois e três aparecem já nos primeiros contos de Lovecraft, ainda que de forma nebulosa, mas os quatro só andariam juntos numa fase posterior da sua obra. O terceiro, sozinho, não sustenta a mensagem cósmica e surge em contos que são tudo, menos cósmicos (“A gravura da casa maldita”, por exemplo). Apesar disso, é um elemento importante dos Mitos, pois cria um universo imaginário que interliga as histórias.

A mensagem filosófica de Lovecraft

Infelizmente, e com frequência, leitores, escritores ou mesmo críticos de Lovecraft se prendem a aspectos superficiais de seus contos, ignorando a filosofia por trás deles. Enquanto que, na verdade, a perspectiva cósmica é a própria essência da mensagem filosófica de Lovecraft, a alma de muitas de suas histórias.

Em conclusão, a base da obra de Lovecraft como um todo é a complexa pseudomitologia que ele criou, chamada posteriormente de “Mitos de Cthulhu”. Essa inversão do princípio religioso resultou, sobretudo, em uma cosmologia própria; um universo sob o jugo de uma raça de alienígenas prestes a retornar. No momento em que as estrelas se alinharem, os monstros chegarão através de fissuras na realidade, trazendo consigo o caos.

Referências

Guerra dos Mundos ([1897] Pandorga Editora, 2020), de H.G. Wells.

O Chamado de Lovecraft (Tese, 2019), de Lúcio Reis Filho.

The new annotated H.P. Lovecraft (2014), de Leslie S. Klinger.

I am Providence: The Life and Times of H. P. Lovecraft (2013), de S.T. Joshi.

Horror: a thematic history in fiction and film (2002), de Darryl Jones.

An H. P. Lovecraft Encyclopedia (2001), de S.T. Joshi e David E. Schultz.

Fantastique et événement: Etude comparée des ouvres des Jules Verne et de Howard P. Lovecraft (Annales littéraires de l’Université de Franche-Comté, 1997), de Florent Montclair.

The King of Weird” (The New York Review of Books, 31/10/1996), de Joyce Carol Oates.

Para saber mais sobre os Mitos de Cthulhu:

Grandes Anciões: as abominações cósmicas de Lovecraft

Lovecraft: profeta da era nuclear?

Como citar este artigo? (ABNT)

REIS FILHO, L. Os Mitos de Cthulhu: a pseudomitologia de Lovecraft, Projeto Ítaca. Disponível em: https://projetoitaca.com.br/os-mitos-de-cthulhu-a-pseudomitologia-de-lovecraft/. Acesso em: 23/04/2024.

Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Lúcio Reis Filho é Ph.D. em Comunicação (Cinema e Audiovisual), escritor e cineasta especializado nas interseções entre Cinema, História e Literatura, com foco nos gêneros do horror e da ficção científica. Historiador com especialização em Estudos Clássicos pela Universidade de Brasília, em parceria com a Cátedra Unesco Archai (Unb/Unesco), é Coordenador do Projeto Ítaca. Seus interesses acadêmicos e de pesquisa são essencialmente interdisciplinares; abrangem Cinema, Artes Visuais, História, Literatura Comparada e Estudos da Mídia. Escreve periodicamente resenhas de livros, filmes e jogos para diversas publicações.
Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Lúcio Reis Filho é Ph.D. em Comunicação (Cinema e Audiovisual), escritor e cineasta especializado nas interseções entre Cinema, História e Literatura, com foco nos gêneros do horror e da ficção científica. Historiador com especialização em Estudos Clássicos pela Universidade de Brasília, em parceria com a Cátedra Unesco Archai (Unb/Unesco), é Coordenador do Projeto Ítaca. Seus interesses acadêmicos e de pesquisa são essencialmente interdisciplinares; abrangem Cinema, Artes Visuais, História, Literatura Comparada e Estudos da Mídia. Escreve periodicamente resenhas de livros, filmes e jogos para diversas publicações.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *