Pink Narcissus: o filme que redefiniu o underground

Compartilhar:

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp

A lenda de Narciso fala do rapaz que, de tão lindo, atraía homens e mulheres, mas se tornou indiferente em relação ao amor. A deusa Nêmesis, então, lançou um feitiço que o fez se apaixonar pelo seu próprio reflexo na água. Narciso se curvou sobre uma fonte num dia quente. Nela, viu seu lindo rosto e, não surpreendentemente, caiu de amores. Incapaz de quebrar a maldição, o rapaz morreu logo em seguida. A lenda grega deu origem ao termo “narcisismo” e ganhou muitas versões ao longo dos séculos. É o caso de Pink Narcissus, poema visual erótico que explora os devaneios de um garoto de programa gay. Sozinho em seu quarto, o lindo rapaz cria fantasias narcisistas com homens violentos, dançarinos e motoqueiros com roupa de couro. Por quase 30 anos, esse foi um filme tão enigmático quanto sensual.

O mistério do diretor anônimo

Nos créditos de Pink Narcissus não consta o nome do diretor. Por isso, houve rumores de que o filme era obra de Andy Warhol ou Kenneth Anger, dois expoentes do cinema queer. Em 1964, o primeiro lançou o curta-metragem Blow Job, que foca, em seus 34 minutos, no rosto de um rapaz enquanto ele ganha um boquete. Um ano antes, o segundo surgiu com seu filme-fetiche Scorpio Rising.

Nos anos 90, o fã de Pink Narcissus e escritor Bruce Benderson resolveu investigar o mistério. Até que, finalmente, desvendou a identidade do diretor desse clássico underground. De fato, não se tratava do pai da pop art nem do cineasta experimental que uniu erotismo e surrealismo. Seu nome era James Bidgood, ele ainda vivia em Manhattan e trabalhava no roteiro de um novo filme.

Em 1999, Benderson lançou pela Taschen um livro sobre o trabalho desse artista visual nos campos do cinema e da fotografia. Bidgood ganhou fama por sua obra homoerótica ultra-estilizada que abraçou várias mídias e disciplinas, tais como cenografia, música e performance drag. Ele fez Pink Narcissus em seu próprio apartamento no intervalo de sete anos (entre 1963 e 1970). O filme, quase sem diálogos, é uma fantasia sobre um garoto de programa, retratado muitas vezes nu. Na época de seu lançamento, em 1971, o diretor estava insatisfeito com o corte final, então pediu que tirassem seu nome dos créditos.

Raízes na cena gay underground

Narciso (Bobby Kendall), o belo garoto de programa, é o personagem central dos seus mundos imaginários. Ele se vê como um assassino; como um escravo romano, tanto quanto o imperador que o condena; como o senhor de um harém masculino, para quem outro rapaz dança sensualmente… Pink Narcissus leva o espectador a momentos de intimidade, conforme o garoto explora suas fantasias sexuais entre as quatro paredes do seu quarto cor-de-rosa.

A obra virou referência para o cinema experimental LGBTQIA+. Por conseguinte, a exemplo de Warhol, Anger e Derek Jarman, Bidgood subiu ao panteão dos grandes nomes do cinema queer e da cena gay underground. Isso se deve, principalmente, à estilização e à carga homoerótica dos elementos cenográficos, que realçam o corpo e o figurino. Ele fez isso com sensibilidade extravagante, que o ator Bobby Kendall personificou para a câmera. Além disso, há muito do pulp e do glamour de Hollywood, mas de uma perspectiva estética exagerada e cafona.

Salvo o clímax do filme, que rodou num loft no centro de Manhattan, o cineasta fez o resto no seu apartamento pequeno e decadente em Hell’s Kitchen. A trilha sonora, adaptada de acordo com as imagens, e o efeito das luzes, de cores vibrantes (ora azuis, ora rosas), criam uma atmosfera efêmera de excentricidade. Assim, Pink Narcissus move-se entre o épico e o intimista.

A estética de Pink Narcissus

Por não ter um enredo claro, Pink Narcissus funciona como um “poema audiovisual” de 65 minutos. Isso porque se preocupa mais em construir uma experiência estética, em contraste com as técnicas que focam na narratividade e na continuidade. Assim, realça os figurinos, a montagem, o belo corpo dos modelos e suas várias poses. Com efeito, usa primeiros planos põe em destaque ações banais do dia-a-dia, como o ato de fumar um cigarro. Tudo é palco e razão de epifania. Assim, o filme busca alcançar “eros”, isto é, desejo, amor e sexo, em alusão ao deus grego.

Com luzes brilhantes e paleta de cores inovadora, Pink Narcissus veio ao mundo como uma obra descaradamente gay e pornográfica. Bidgood rodou o filme em Super-8 e quase sem diálogos. Assim, criou um composição “solta” que gira em torno dos sonhos e fantasias de um garoto de programa, sozinho em seu apartamento. Não deixa de ser um exercício autobiográfico, pois, nas palavras do diretor, é um retrato dos seus próprios sonhos quando jovem em Nova York.

A sensualidade das cenas deve-se principalmente à encenação e ao uso das cores. O toureiro sexy calça suas botas em meio à profusão de tons roxos; depois, vemos Narciso num boudoir de rosa ardente. O clímax é a dança do ventre, num jogo de fusões e sobreposições. Diante dos olhares do seu senhor, o escravo sexual sacode os colares de pérolas e a tanga fina, que mal disfarça sua ereção.

O que move o desejo

A força que move o filme é o narcisismo do rapaz, bem como seu mergulho fantasioso nas mais inconscientes expressões do desejo humano. Elas se mostram sob o espectro da masculinidade, isto é, na forma de homens dominadores, cowboys, gladiadores romanos, deuses gregos, claro, e outros arquétipos LGBTQIA+. Essas figuras moldam e levam adiante a narrativa visual, psicodélica e exuberante. Dessa maneira, o quarto de Narciso vira um santuário sexual digno de Afrodite.

Não há ações com começo, meio e fim; há ecos cênicos que dão palco aos fetiches do rapaz. Assim, idealizam-se vários universos ou manifestações do inconsciente. Das insinuações sexuais no banheiro aos jardins coloridos e aos cenários escuros, que indicam o desejo de provar o desconhecido. Bidgood criou tudo isso com o propósito de causar sensações no espectador. Por fim, fazendo eco à lenda de Narciso, o filme trata como se os prazeres da carne levassem inevitavelmente à ruína.

O imaginário gay em Pink Narcissus

Em suma, Pink Narcissus toca na questão da identidade sexual e nos arquétipos que povoam o imaginário gay. Para isso, usa rico simbolismo a fim de explorar os aspectos mais singulares desse universo. O fascínio pelo corpo masculino mostra-se com estilização e erotismo intensos, que traduzem para o cinema os desejos sexuais mais profundos na mente humana.

Bidgood dava sinais do seu estilo já nas suas primeiras fotos, pois os temas contemporâneos estavam lá desde o início. Erotismo, desejo, marginalidade, performance… tudo salta à vista em seus retratos de homens nus. Ele pôs jovens com cara de menino, corpos sem pelo e bundas atrevidas em cenários mitológicos e fantásticos. Em Pan from Behind (1965-69), o deus Pã senta num tronco de árvore (esse tema volta em Pink Narcissus). Por sua vez, amarrado a um floco de neve gigante, Jack Frost não usa nada além de uma jockstrap e spray de glitter. A edição de agosto/setembro de 1965 da Muscleboy, uma das “revistas de ginástica” que burlavam a censura, trouxe na capa um jovem deitado na grama.

No campo das artes visuais, as escolhas do diretor de Pink Narcissus serviram de influência para muita gente. É o caso dos irmãos Pierre et Gilles, fotógrafos franceses, e do americano David LaChapalle, autor de fotos surrealistas e videoclipes de música pop. Com seus toureiros sensuais e dançarinos de ventre trincado, Bidgood foi pioneiro de uma estética que muitos imitam desde então. Ela e chega aos dias de hoje com marcas na obra de Lil Nas X e tantos outros artistas queer.

Veja Pink Narcissus no Internet Archive.

Referências

“‘Addicted to dreaming’: James Bidgood, the Pink Narcissus director who defined camp” (The Guardian, 02/02/2022), por Oliver Basciano.

“Extremely Loud and Incredibly Camp” (Aperture, 15/05/2019), por Jesse Dorris.

Against Nature – William E. Jones on the art of James Bidgood” (artforum, 2019).

“‘Pink Narcissus’ Looms Large in Queer Cinema” (Frieze, 10/12/2015), por Ara H. Merjian.

James Bidgood (Photo Book Series, 1999), por Bruce Benderson.

Como citar este artigo? (ABNT)

REIS FILHO, L. Pink Narcissus: o filme que redefiniu o underground, Projeto Ítaca. Disponível em: https://projetoitaca.com.br/pink-narcissus-o-filme-que-redefiniu-a-cultura-underground/. Acesso em: 04/07/2022.

Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Historiador, professor e escritor. Tem Doutorado em Comunicação (Cinema e Audiovisual) e especialização em Estudos Clássicos.
Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Historiador, professor e escritor. Tem Doutorado em Comunicação (Cinema e Audiovisual) e especialização em Estudos Clássicos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Relacionado