Ariadne, o destino e o eterno retorno em Dark

A série alemã Dark, que marcou sua estreia na Netflix em 2017, chegou ao fim em 27 de junho de 2020, em meio à pandemia de COVID-19. A base das três temporadas é o mito de Ariadne e outro relacionado a ele, o do Minotauro. Ambos os personagens, o labirinto, o sacrifício de homens e mulheres, os eventos cíclicos e o novelo (fio vermelho) são temas da mitologia grega na série. Conforme veremos, também há uma relação desses mitos com o eterno retorno de Nietzsche.

O mito de Ariadne

Na mitologia, Ariadne é a filha do rei Minos e de Pasífae. Quando Teseu chega a Creta para lutar com o Minotauro, a moça se apaixona por ele. Para que o herói não se perca no labirinto, onde vive o monstro, Ariadne dá a Teseu um novelo, que ele desenrola, marcando o caminho de volta.

Teseu luta com o Minotauro e o mata, cortando-lhe a cabeça. Depois, segue o novelo até achar a saída. É com a ajuda de Ariadne, portanto, que ele deixa do labirinto. Para escapar da fúria de seu pai, a moça decide partir com o herói, mas nunca chega a Atenas. Após fazerem escala na ilha de Naxos, Teseu a abandona na praia enquanto dorme.

Nesse ínterim, Ariadne acorda com o nascer do dia e vê a embarcação ao longe, suas velas sumindo no horizonte. As explicações para a traição do seu amado variam de acordo com os autores. Para alguns, o herói teria feito isso por ordem dos deuses, pois os destinos não permitiriam que ele ficasse com a moça. Isso porque, na crença dos antigos gregos, existia a encarnação de uma lei implacável à qual os próprios deuses estavam sujeitos. Ou seja, o destino personificado de cada criatura humana.

O determinismo alemão: a ideia de destino

Um dos temas de Dark é a ideia de destino, poder misterioso capaz de governar tudo o que existe no universo e determinar o curso dos acontecimentos, bem como o devir da história humana. Isto é, o processo de mudança constante pelo qual passam todos os seres e todas as coisas.

Em outras palavras, o destino determina tudo o que acontecerá com os seres humanos — conforme o que está escrito no “livro dos destinos”. Tem relação, portanto, com outro tema central na série: o determinismo, ou seja, a negação do livre-arbítrio. De acordo com essa doutrina filosófica, tudo no universo está sujeito à necessidade, inclusive a vontade dos seres humanos. “Necessário”, nesse sentido, é aquilo que não pode ser de outra maneira.

Chegamos, então, às ideias do alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), um dos filósofos que mais influenciou o pensamento contemporâneo. Algumas de suas ideias estão na base de Dark. Por exemplo, o eterno retorno. Este conceito está ligado a uma doutrina dos antigos filósofos gregos, sobre o movimento cíclico absoluto e infinitamente repetido de todas as coisas. Além disso, Nietzsche escreveu um poema chamado “Lamento de Ariadne”.

Nietzsche e o eterno retorno

Em Assim falou Zaratustra (1883-5), Nietzsche diz que tudo passa e tudo retorna, ou seja, a roda gira eternamente. Em Ecce homo (1888), o filósofo trouxe a ideia do eterno retorno: se o tempo não é linear, não faz sentido distinguir entre o “antes” e o “depois”. Se tudo retorna, o futuro já é um passado, tanto quanto o presente. Ou seja, se o passado se repete, o sofrimento continuará sendo experimentado repetidas vezes.

Em Dark, os eventos se repetem ao longo da jornada dos heróis Jonas (Louis Hofmann) e Martha (Lisa Vicari), por mais que eles tentem mudá-los. Isso ocorre nos três “tempos”, embora com pequenas diferenças. O eterno retorno, portanto, é a base da série — combinação de mitologia, filosofia e ficção científica. Isso porque, além do recurso das viagens no tempo, Dark tem uma narrativa do tipo “quebra-cabeça” como a dos filmes Amnésia (2000), Donnie Darko (2001) e A Origem (2010). O que essas produções têm em comum? Elas tentam nos absorver na dinâmica da narrativa, distorcendo ou quebrando o tempo. Seus personagens vão de encontro com o destino, enquanto tentam montar as peças do quebra-cabeça. Na continuação deste post, vamos falar mais sobre o eterno retorno.

Referências

Dicionário de mitologia grega e romana (2011), de Pierre Grimal.

Dicionário básico de filosofia (1991), de Hilton Japiassu e Danilo Marcondes.

Mistério de Ariadne segundo Nietzsche (2006, p. 7-17), de Gilles Deleuze.

Como citar este artigo? (ABNT)

REIS FILHO, L. Ariadne, o destino e o eterno retorno em Dark, Projeto Ítaca. Disponível em: https://projetoitaca.com.br/ariadne-destino-e-eterno-retorno-em-dark/. Acesso em: 17/08/2022.

Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Lúcio Reis Filho é Ph.D. em Comunicação (Cinema e Audiovisual), escritor e cineasta especializado nas interseções entre Cinema, História e Literatura, com foco nos gêneros do horror e da ficção científica. Historiador com especialização em Estudos Clássicos pela Universidade de Brasília, em parceria com a Cátedra Unesco Archai (Unb/Unesco), é Coordenador do Projeto Ítaca. Seus interesses acadêmicos e de pesquisa são essencialmente interdisciplinares; abrangem Cinema, Artes Visuais, História, Literatura Comparada e Estudos da Mídia. Escreve periodicamente resenhas de livros, filmes e jogos para diversas publicações.
Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Lúcio Reis Filho é Ph.D. em Comunicação (Cinema e Audiovisual), escritor e cineasta especializado nas interseções entre Cinema, História e Literatura, com foco nos gêneros do horror e da ficção científica. Historiador com especialização em Estudos Clássicos pela Universidade de Brasília, em parceria com a Cátedra Unesco Archai (Unb/Unesco), é Coordenador do Projeto Ítaca. Seus interesses acadêmicos e de pesquisa são essencialmente interdisciplinares; abrangem Cinema, Artes Visuais, História, Literatura Comparada e Estudos da Mídia. Escreve periodicamente resenhas de livros, filmes e jogos para diversas publicações.

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