Castelo Rá-Tim-Bum: Caipora e o folclore brasileiro

Quem foi criança nos anos 1990 vai se lembrar com nostalgia de Castelo Rá-Tim-Bum. Esse grande sucesso representou o maior orçamento da TV Cultura e uma de suas maiores audiências, tornando-se uma das principais produções educativas da televisão brasileira. A série infanto-juvenil, que estreou em 1994 e foi ao ar até 1997, marcou época e contribuiu inegavelmente para a formação de uma geração. Das lições importantes que deixou, podemos citar a valorização do folclore e dos povos tradicionais brasileiros, bem como o respeito à natureza. Essas questões ganham destaque com a personagem Caipora, simbolicamente importante na mitologia indígena. Vamos conhecê-la!

O mundo mágico de Castelo Rá-Tim-Bum

Tudo começa quando três crianças descobrem um castelo mágico no centro de São Paulo. Lá vivem Nino (Cassio Scapin), um bruxinho de 300 anos, e seus tios, os feiticeiros Dr. Victor (Sérgio Mamberti) e Morgana (Rosi Campos). Certo dia, Nino faz um encantamento para ter amigos, pois já não aguentava a solidão. Assim, conhece Biba (Cynthia Rachel), Pedro (Luciano Amaral) e Zequinha (Freddy Allan). Essa é a história de Castelo Rá-Tim-Bum, que gira em torno desse lugar e seus segredos.

O mundo mágico que as crianças descobrem, no coração da selva de pedra, é lar de seres curiosos e fantásticos. Nino é um bruxo, assim como seu tio Victor, que também é cientista, e sua tia-avó Morgana, feiticeira com mais de 6 mil anos. No Castelo, entre outros seres, vivem o Gato Pintado, que ama os livros, e a cobra Celeste, que sonha em ter pernas e braços. Ao longo dos episódios, Nino e seus amigos recebem a visita de diversos personagens icônicos. Este é o caso de Caipora.

A Caipora em Castelo Rá-Tim-Bum

Castelo Rá-Tim-Bum teve o importante papel de levar a lenda de Caipora a amplo conhecimento, o que fez de forma eficiente. Foi o terceiro episódio que introduziu a personagem, presença esporádica ao longo da série. Com seus ruídos, onomatopeias e histórias da mata, ela aparece como uma entidade indígena feminina, de cabelos e roupas vermelhas. Quem deu vida a ela foi a atriz Patricia Gasppar.

A Caipora vive na floresta, onde protege os animais e se alimenta de frutos, mas aparece no Castelo sempre que alguém assobia. Ela conhece muitas histórias indígenas e gosta de contá-las para as crianças, de forma lúdica e educativa. Mas, por não estar habituada aos costumes da cidade, pode tornar-se um tanto inconveniente. Então, para se livrar dela, deve-se adivinhar a palavra secreta que escolheu.

Essa personagem do folclore é tanto icônica quanto culturalmente simbólica. A Caipora surge de diferentes formas no imaginário brasileiro, seja em relação ao seu comportamento, seja em relação à sua forma ou aparência física, adaptando-se à cultura e às tradições regionais do país. Assim, ela reflete muito das nossas crenças e práticas culturais, conforme vamos descobrir.

A lenda de origem indígena

A Caipora é uma lenda de origem tupi-guarani. Seu nome vem de caá (mato) e porá (habitante), isto é, “aquele que vive no mato”. No folclore brasileiro, essa entidade equivale ao Curupira, embora tenha os pés normais. Assim como ele, costuma aparecer nas lendas do interior do Brasil como um pequeno indígena, em geral do sexo feminino. Contudo, sua aparência pode variar de acordo com a região.

De defensora das árvores, a entidade se tornou protetora da caça e dos animais, assim como a deusa greco-romana Diana. Também é amiga dos seres humanos e tem relação com os mitos ígneos (ou seja, do fogo) de outras regiões da América Latina. A figura de cabeleira vermelha que vemos em Castelo Rá-Tim-Bum – à semelhança do Curupira – é, portanto, a combinação de várias tradições.

Outros seres do folclore e da mitologia

Além da Caipora, Castelo Rá-Tim-Bum inclui outros personagens do folclore brasileiro, dos contos de fadas e da mitologia mundial. No episódio 18, por exemplo, o Saci escapa de um livro da biblioteca e apronta várias confusões no Castelo. No episódio 44, o Cupido da mitologia greco-romana invade o lugar; o risco é que o deus do amor fizesse uns se apaixonarem pelos outros. Assim, com seus personagens cativantes e memoráveis, a série criou um universo povoado de mitos e lendas.

De acordo com Bibiana Dias e Heloisa de Azevedo, Castelo Rá-Tim-Bum foi um importante (e eficiente) disseminador do folclore brasileiro para as crianças. Afinal, por mais que algumas delas já tivessem ouvido falar de Caipora e outros personagens, sua presença em programas infanto-juvenis faz com que se tornem mais simpáticos e atrativos. Nesse sentido, a série funcionou como ferramenta indispensável no processo de conhecimento e fixação dos mitos e lendas tradicionais.

Referências

“As lições do Castelo Rá-Tim-Bum para uma sociedade mais justa” (Matraca Cultural, 20/09/2019), por Antonio Saturnino.

“Permanência do folclore em sociedades pós-modernas: como o programa Castelo Rá-Tim-Bum influenciou na fixação da lenda da Caipora no imaginário dos jovens” (RELACult, 2019), de Bibiana de Moraes Dias e Heloisa Helena de Azevedo.

Dicionário do folclore brasileiro (1998), de Luís da Câmara Cascudo.

Como citar este artigo? (ABNT)

REIS FILHO, L. Castelo Rá-Tim-Bum: Caipora e o folclore brasileiro, Projeto Ítaca. Disponível em: https://projetoitaca.com.br/castelo-ra-tim-bum-caipora-e-o-folclore-brasileiro/. Acesso em: 23/04/2024.

Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Lúcio Reis Filho é Ph.D. em Comunicação (Cinema e Audiovisual), escritor e cineasta especializado nas interseções entre Cinema, História e Literatura, com foco nos gêneros do horror e da ficção científica. Historiador com especialização em Estudos Clássicos pela Universidade de Brasília, em parceria com a Cátedra Unesco Archai (Unb/Unesco), é Coordenador do Projeto Ítaca. Seus interesses acadêmicos e de pesquisa são essencialmente interdisciplinares; abrangem Cinema, Artes Visuais, História, Literatura Comparada e Estudos da Mídia. Escreve periodicamente resenhas de livros, filmes e jogos para diversas publicações.
Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Lúcio Reis Filho é Ph.D. em Comunicação (Cinema e Audiovisual), escritor e cineasta especializado nas interseções entre Cinema, História e Literatura, com foco nos gêneros do horror e da ficção científica. Historiador com especialização em Estudos Clássicos pela Universidade de Brasília, em parceria com a Cátedra Unesco Archai (Unb/Unesco), é Coordenador do Projeto Ítaca. Seus interesses acadêmicos e de pesquisa são essencialmente interdisciplinares; abrangem Cinema, Artes Visuais, História, Literatura Comparada e Estudos da Mídia. Escreve periodicamente resenhas de livros, filmes e jogos para diversas publicações.

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