Histórias de vampiro: porque os vampiros nunca morrem?

Tradução: Lúcio Reis Filho

Você já se perguntou porque as histórias de vampiro nos atraem tanto? É claro, há o terror intoxicante que experimentamos sem nunca deixar a segurança da nossa poltrona. Mas haveria algo além disso? Essas histórias surgiram primeiramente no mundo anglófilo do século XIX, quando a ideia de um homem entrando no quarto de uma donzela era mais chocante e arrebatadora do que podemos imaginar hoje. O elemento de fantasia sexual ou de ato transgressivo, portanto, sempre esteve presente.

Apesar de Carmilla, personagem feminina de Le Fanu, a duradoura imagem do vampiro vitoriano/eduardiano tem sido a do aristocrata do sexo masculino à caça de virgens. Mas, embora essa fantasia ainda seja popular – afinal, o herói aos moldes de Byron é um marco dos romances do período regencial (1811-1820) –, os vampiros do século XXI se adaptaram às mudanças sociais.

O vampiro de John Polidori

Às vezes, diz-se que nosso interesse pelo tema é reflexo de uma sociedade em que os aristocratas rapinam os pobres. De fato, isso condiz com uma das primeiras histórias de vampiro em língua inglesa: The Vampyre, de John Polidori. O autor era médico de Byron, e juntos eles foram à Suíça, à Itália e à Grécia. No seu prefácio à obra, afirma que tais lendas tiveram origem na Turquia.

No momento em que a obra de Polidori viu a luz do dia, em 1819, acreditou-se piamente que o vampiro Ruthven fosse um retrato de Byron, então visto pela sociedade britânica como um aristocrata predador. Em The Vampyre, bem como na Inglaterra regencial, entendia-se por “sociedade” a classe média ociosa e refinada; ela se opunha, portanto, à ideia de “povo”. Logo, os personagens Ruthven e seu parceiro Aubrey representariam uma elite social, em contraste com a inocência daquela que mais se aproxima do povo: a jovem grega Ianthe, vítima de Ruthven.

Em certas passagens, descreve-se Ianthe como camponesa, mas sua posição social não fica assim tão clara. Diz-se que seu pai é um grego ateniense. No entanto, para Aubrey seria uma insensatez casar-se com “uma menina grega sem educação”, ainda que Ianthe tivesse uma criada. Com base em dados tão escassos, fica difícil relacioná-la à rica classe mercantil, o que seria tão provável quanto uma suposta origem camponesa. Mas é sua inocência – “em contraste com as afetadas virtudes das mulheres em meio às quais [Ruthven] procurara sua visão de romance” – que faz dela parte “do povo” e não da “sociedade”. É claro que o povo, criador e portador do folclore, surge como fonte de superstições e histórias de vampiro, que já circulavam muito antes de sua adoção e adaptação pela literatura erudita.

Entre o Drácula e a Condessa de Sangue

Podemos comparar o Drácula de Stoker a Elizabeth Báthory, a sádica serial killer da vida real. Ambos tinham domínios numa região da Europa em disputa pelos impérios austro-húngaro e otomano. Assim puderam rapinar, incontestes, os camponeses da região, valendo-se de seu status aristocrático.

Em Drácula, se as vítimas dos vampiros são ou não inocentes, isso está longe de ficar claro. Lucy, conforme a descrevem, é “bastante aborrecida e aquiescente”, ao passo que “seu desejo por três maridos sugere um grau de sensualidade latente”. Pode-se dizer que, em virtude do sonambulismo, Lucy se põe à disposição de Drácula. Decerto, é ela quem dá sequência à rapina dos membros mais inocentes e despossuídos da sociedade, os filhos dos pobres. Seus defensores burgueses/aristocráticos parecem pouco se importar se os jovens que salvam serão vampirizados. Van Helsing ordena, com efeito: “quando levar a criança para casa, advertirá seus pais a vigiá-la estritamente”.

Dentro da hierarquia do romance, Drácula inegavelmente opta por rapinar todos os pobres ao seu alcance, e somente eles. A história, portanto, dá muitas evidências de que os socialmente poderosos são livres para abusar dos mais vulneráveis.

Sobre Báthory, diz-se “que suas ações eram, por um lado, expressão de tremendo sadismo e, por outro, não mais que uma extensão da atitude contemporânea em relação ao valor da vida humana – principalmente àquela de pessoas desprovidas de status social; ela só foi capturada pelos seus crimes depois que começou a matar garotas nobres”. Similarmente, os ataques brutais do partido neonazista grego Golden Dawn a imigrantes raramente geram resposta política enérgica. Só depois de um grego ser assassinado, em setembro de 2013, que os protestos enfim levaram a investigações e ao tribunal.

Analogia à escravidão sexual contemporânea

Brown Girl in the Ring (1998), romance de Nalo Hopkinson, nos faz imaginar um mundo pós-apocalíptico. Depois do colapso dos grandes centros, “investidores, comércio e governo se retiraram (. . .) deixando o núcleo podre em decomposição”. As pessoas que ficaram na cidade, nesse “núcleo” deixado para trás, são, inegavelmente, despossuídas. Elas lutam para sobreviver e recriam a vida a partir das ruínas da sociedade. Assim, recriam um sistema comercial (que gira em torno da troca de bens e favores), cultivam os parques da cidade e caçam. Surpreendentemente, algumas áreas urbanas implantam a agricultura comunitária nos parques (veja, por exemplo, http://cityfruit.org/). Por sua vez, um outro grupo remanescente é aquele que “viu no declínio da autoridade uma oportunidade”.

Tido como oportunista, o personagem Rudy Sheldon aproveita para criar seu próprio feudo. Sendo a caricatura de um senhor feudal cruel, ele governa pela violência e pelo medo. Num gozo de crueldade que só atende aos seus próprios interesses, e inclui derramamento de sangue e esfolamentos, Rudy rivaliza com Báthory no sadismo. Mas, ao mesmo tempo que ele se encaixa na aristocracia ociosa e refinada das primeiras histórias de vampiro, não fica assim tão longe da sua fonte de riqueza. Nesse sentido, talvez se aproxime mais de um boyar valaquiano (nobreza dos principados da Europa central e oriental) que aumentava a corveia (imposto) dos servos.

Já o personagem Melba vira um zumbi, como punição por “reter alguns de seus ganhos”. Assim, ele surge como exemplo da “sede ilimitada por trabalho excedente” e do “trabalho compulsório até a morte”, que Marx associou à escravidão e que Hopkinson, autor do romance, talvez relacione ao tráfico de pessoas e à escravidão sexual contemporânea. Analogamente, nas ruas de Atenas, uma profissional do sexo jovem e usuária de heroína tem uma expectativa de vida que não passa de doze meses.

Algumas diferenças

A protagonista Ti-Jeanne, claro, não tem a inocência sexual da Ianthe de Polidori. E, em contraste, é um pouco resistente ao folclore e à crença no sobrenatural. Por duvidar da eficácia dos métodos tradicionais de cura da sua avó Gros-Jeanne, ela põe comprimidos de vitamina B e um tubo de creme anti-inflamatório nas coisas do Sr. Reed. Quando tem visões – “as engrenagens deslizando entre os dois mundos” –, o medo que sente é como “gelo no peito”. Gros-Jeanne é a guardiã dos saberes antigos, tanto medicinais quanto mágicos. É portadora da cultura popular, assim como a criada de Ianthe, e adverte Ti-Jeanne: “se você não aprender a usá-lo [seu poder visionário], ele o usará”.

Em Brown Girl, um tipo de exploração vampírica atravessa a estrutura social e podemos ver Uttley como o elemento “aristocrático”. O político manipula tudo à distância, mas nunca suja as mãos ou sequer comete, de fato, um crime. Num ambiente estéril, Uttley acha um coração puro e bom; em seguida, cria um plano que resulta em assassinato, isto é, num ataque ao “povo” que Gros-Jeanne representa.

Síntese e outros exemplos

Apesar de Crepúsculo, é um consenso que os vampiros são predadores. Mas, se acaso levarmos em conta as histórias de vampiro contemporâneas, o estereótipo clássico do homem maduro e aristocrático, com uma capa de ópera, parece aberto a todas as formas de subversão e reinterpretação. Por conseguinte, as presas de alho deixaram de ser elementos obrigatórios.

Em Guilty Pleasures (1993), os vampiros surgem como uma subcultura, entre tantas outras. Nesse livro de Laurell K. Hamilton, eles são antissociais por natureza e não fazem parte das elites; pelo contrário, são de um grupo minoritário e oprimido. Em Lost Souls (1992), de Poppy Z. Brite, há vampiros que são astros do rock hedonistas, talvez um tipo mais contemporâneo de “aristocracia” predatória. Seu apelo fashion e descontraído cria um culto que bebe na fonte da nossa obsessão por celebridades.

Conclusão

Com sua sociedade estratificada, Brown Girl talvez seja um caso incomum nas histórias de vampiro contemporâneas. A princípio, em Hamilton e Brite, os grupos sociais englobam vários interesses e subculturas, de modo que chega a ser difícil diferenciar as ideias de “sociedade” e “povo”. Assim como o Drácula de Stoker, Brown Girl explora esse tipo de sociedade, ainda que ela se mostre de forma inegavelmente mais complexa. Não estou ciente de histórias de vampiro em que esse personagem não venha ‘de cima’. Em outras palavras, o vampiro politicamente consciente e sem privilégios, que ataca os poderosos, é um personagem intrigante em busca de um autor.

Nosso fascínio pelo vampiro, como protagonista, não mostra sinais de queda. Mas ele fez uma longa viagem, do Império Otomano ao mundo pós-freudiano, pós-feminista e pós-verdade de hoje. Assim, conforme o imperativo darwiniano de se adaptar para sobreviver, é um meme cultural persistente.

Textos vampíricos selecionados

Lost Souls (2010), de Poppy Brite.

Guilty Pleasures (1993), de Laurell K. Hamilton.

Brown Girl in the Ring (1998), de Nalo Hopkinson.

Carmilla (em In a Glass Darkly, 2007), de J. S. Le Fanu.

Twilight (2006), de Stephenie Meyer.

The Vampyre: A Tale (1819), de John William Polidori.

Dracula: A Mystery Story (1897), de Bram Stoker.

Para ler mais:

Postfeminist Gothic (2007), de Benjamin Brabon e Stéphanie Genz.

Reading the Vampire (1994), de Ken Gelder.

Texto original em: http://carolcmcgrath.co.uk/why-vampires-never-die-by-theresa-stoker/

Theresa Stoker

Theresa Stoker

Escritora residente em Lancashire e no Peloponeso. Escreve comédias de teatro, contos e atualmente trabalha em um romance ambientado em uma vila grega. Ganhou o primeiro prêmio na competição Grand Words, do Grand Theatre de Blackpool, por peças curtas de comédia, e na competição de contos do RAC Driving in Europe.
Theresa Stoker

Theresa Stoker

Escritora residente em Lancashire e no Peloponeso. Escreve comédias de teatro, contos e atualmente trabalha em um romance ambientado em uma vila grega. Ganhou o primeiro prêmio na competição Grand Words, do Grand Theatre de Blackpool, por peças curtas de comédia, e na competição de contos do RAC Driving in Europe.

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