Marvel 1602: Neil Gaiman e o 11 de Setembro

Os ataques terroristas do 11 de setembro de 2001 abalaram os Estados Unidos. Enquanto o mundo assistia em choque a seus efeitos, Neil Gaiman viu os valores da sociedade se reduzirem a pó junto das torres gêmeas do World Trade Center. Anos mais tarde, o escritor inglês decidiu recuperar tais valores a fim de fortalecê-los. Dessa maneira, poderia refundar a própria nação pelas letras. Ele partiu, então, da seguinte questão: e se os heróis da Marvel Comics vivessem na era elisabetana? Em resposta, criou uma trama original que reúne o grande elenco da editora, numa outra época. Assim nasceu 1602, série em quadrinhos de riqueza temática inesperada, que circulou entre 2003 e 2004.

Fonte: REUTERS/Sara K. Schwittek.

A obra é filha do 11 de setembro, evento inegavelmente novo na política mundial. Não em sua dimensão, mas em relação ao alvo, pois os EUA jamais haviam sofrido ataques em seu território. A partir do tempo presente, Gaiman criou uma trama cujo pano de fundo é a era de ouro da história inglesa, tema de filmes como Elizabeth (1998) e sua continuação. Afinal, o reinado de Elizabeth I (1558-1603) foi uma época de renascença, de retorno à cultura clássica, expansão interna e triunfo sobre a Espanha. Mas por que situar a trama nesse tempo? Ora, porque a pedra fundamental dos EUA também está lá, com a migração de colonos para o Novo Mundo. E Gaiman queria, justamente, refundar a nação em toda a sua glória imaginária. Vamos descobrir como fez isso por meio de mitos e símbolos.

1602 como reflexão do 11 de setembro

Superficialmente, 1602 fala sobre a Grã-Bretanha do século XVII. Na verdade, é uma obra notável sobre os EUA e o agora”, disse Peter Sanderson. Mas, ao se voltar para o passado, Gaiman se afastou do que era contemporâneo; daquilo que, confessamente, não queria em sua obra: aviões, prédios e bombas, por exemplo. Recorrer ao passado levou à negação desses lugares-comuns tecnológicos do universo Marvel.

Ainda assim, a trama diz muito sobre a noção de “América” maculada pelo 11 de setembro, da qual Gaiman de fato não se afasta. Pelo contrário, traz para a obra questões do tempo presente, dando a elas roupa nova — velha, na verdade, pois os trajes são seiscentistas. Nesse sentido, 1602 foi a chave para resgatar mitos e símbolos dos EUA.

No intuito de retomar os valores que, aos seus olhos, ruíram com o 11 de setembro, Gaiman focou na reconstrução simbólica dos EUA. Pôr a trama no século XVII permitiu refletir sobre liberdade, democracia e justiça. Num contexto de incertezas, tais princípios evocam tanto os mitos de fundação quanto um ideal utópico da sociedade, de modo que o escritor buscou reativá-los no imaginário. Nesse sentido, o resgate de mitos e símbolos foi uma reação ao quadro social, político e ideológico que emergiu da nuvem de pó do Ground Zero.

Na trama, Elizabeth I morre pelas mãos dos asseclas do Conde Otto von Doom, da Latvéria, e seu primo James VI da Escócia sobe ao trono. Nessa realidade alternativa de clima tempestuoso e céu cor de sangue, os mutantes são os “sangue-bruxos”, que a Igreja e o Rei perseguem por considerá-los adoradores do demônio – uma alusão à Inquisição e à caça às bruxas. Eles então fogem para a América, onde fundam a colônia de Roanoke e mais tarde declaram a sua independência.

Retomada de ideais americanos

Em primeiro lugar, Gaiman trouxe à tona a ideia de liberdade, pedra de toque desde as colônias inglesas na América do Norte. Os puritanos migraram para lá no início do século XVII, a fim de gozar do livre exercício de culto. Não por acaso, os heróis de 1602 seguem para o Novo Mundo. Fogem da Inglaterra com o propósito de fundar uma nação livre de reis, onde seria possível o recomeço longe da opressão política, religiosa e racial.

Logo, a liberdade de credo é uma questão importante. Como resultado do 11 de setembro, Gaiman concebeu um lugar onde todos pudessem viver em paz, apesar das diferenças. Em 1602, esse lugar é a América — versão utópica dos EUA enquanto nação livre da xenofobia e da intolerância. Assim, a obra liga o sonho do Professor Xavier (líder dos X-Men), de comunhão pacífica entre humanos e mutantes, ao dos fundadores dos EUA, de busca da liberdade e da felicidade. Aliás, a versão seiscentista dos X-Men são os “sangue-bruxos”, vítimas do fogo da Inquisição.

É em terras americanas que um ocultista volta da morte para guiar os heróis, e um velho guardião dos segredos templários vira Thor. Isso porque não haveria espaço, no mundo cristão, para um bruxo, nem para um deus pagão. A bordo da nau “Fantásticko”, quatro viajantes se tornam seres extraordinários. O “efeito fênix” de um dos “sangue-bruxos” também se manifesta às margens do Novo Mundo. Lá, David Banner vira o Hulk e Peter Parguagh é picado por uma aranha que, conforme sabemos, dará a ele poderes incríveis. Assim, com base nos cânones da Marvel e nos mitos de fundação, 1602 faz da América uma terra da liberdade, lugar onde o impossível pode acontecer.

O Capitão América como crítica à era Bush

“Os tempos sombrios foram surgindo vagarosamente. Os outros heróis envelheceram e morreram, ou partiram para… outros lugares… A maior parte dos que sobraram foi caçada e morta. Por fim, tive de encarar os fatos. Aquela não era mais a minha América”.

Steve Rogers em Marvel 1602.

Para Gaiman, a democracia em 1602 não é um símbolo bélico, mas uma noção que brota dos ideais de harmonia, respeito e tolerância. Em resposta ao caos do 11 de setembro, é curioso que o porta-voz desses ideais seja um herói controverso, inegavelmente ligado ao militarismo. Filho da propaganda antinazista da II Guerra Mundial, o Capitão América surgiu como símbolo do patriotismo à flor da pele. No entanto, a contradição ambulante em azul e vermelho traz em si forte crítica ao modelo belicista e intervencionista da Pax Americana.

Embora a trama de 1602 ocorra no passado, em certo momento vemos flashes de um futuro distante, conhecido como os “tempos sombrios”. Assim como na clássica história em quadrinhos Dias de um Futuro Esquecido (1981), os heróis são caçados e mortos nessa distopia. Os EUA já não são um país livre, mas um regime totalitário sob os punhos de ferro do Presidente Vitalício, cujo único rival era o Capitão América. Por isso, o governo prendeu e depois exilou o herói no passado, que acordou no fim do século XVIII. A viagem no tempo rompeu a trama da realidade, criando a dimensão alternativa de 1602. Enfim, o algoz do herói é o próprio governo dos EUA, que se afastou dos pilares democráticos. Essa é a crítica de Gaiman a George W. Bush e seu infame Patriotic Act.

Conclusão

O desejo de refundar simbolicamente os EUA nasceu do 11 de setembro e seus efeitos. Em face da tragédia, Gaiman levou os icônicos heróis da Marvel para uma era de ouro, quando ainda não existiam bombas ou aviões. Em princípio, a escolha de uma ambientação seiscentista pode causar estranheza. Mas logo se justifica na busca de uma América original, com o intuito de resgatar os valores de uma nação. Porém, não faz isso de forma acrítica. Pelo contrário, dá estocadas certeiras na intolerância que se acentuou na era Bush, e nos horrores da Guerra ao Terror. Ao mesmo tempo, 1602 diz muito sobre o tempo presente; evoca a sensação de que algo se perdeu e precisa renascer das cinzas.

Referências

Leituras da América em 1602” (2010), por Lúcio Reis Filho.

Marvel 1602, de Neil Gaiman.

11 de Setembro (2002), de Noam Chomsky.

Como citar este artigo? (ABNT)

REIS FILHO, L. Marvel 1602: Neil Gaiman e o 11 de Setembro, Projeto Ítaca. Disponível em: https://projetoitaca.com.br/marvel-1602-neil-gaiman-e-o-11-de-setembro/. Acesso em: 23/04/2024.

Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Lúcio Reis Filho é Ph.D. em Comunicação (Cinema e Audiovisual), escritor e cineasta especializado nas interseções entre Cinema, História e Literatura, com foco nos gêneros do horror e da ficção científica. Historiador com especialização em Estudos Clássicos pela Universidade de Brasília, em parceria com a Cátedra Unesco Archai (Unb/Unesco), é Coordenador do Projeto Ítaca. Seus interesses acadêmicos e de pesquisa são essencialmente interdisciplinares; abrangem Cinema, Artes Visuais, História, Literatura Comparada e Estudos da Mídia. Escreve periodicamente resenhas de livros, filmes e jogos para diversas publicações.
Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Lúcio Reis Filho é Ph.D. em Comunicação (Cinema e Audiovisual), escritor e cineasta especializado nas interseções entre Cinema, História e Literatura, com foco nos gêneros do horror e da ficção científica. Historiador com especialização em Estudos Clássicos pela Universidade de Brasília, em parceria com a Cátedra Unesco Archai (Unb/Unesco), é Coordenador do Projeto Ítaca. Seus interesses acadêmicos e de pesquisa são essencialmente interdisciplinares; abrangem Cinema, Artes Visuais, História, Literatura Comparada e Estudos da Mídia. Escreve periodicamente resenhas de livros, filmes e jogos para diversas publicações.

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