A lenda das águas virtuosas: inventando uma tradição

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Situada em um vale no sul de Minas Gerais, Lambari faz parte do Circuito das Águas. Isso porque a cidade, como outras da região, ganhou fama pelas fontes naturais que brotam da rocha. As origens de Lambari dependem diretamente das suas águas. Com efeito, a fé dos moradores locais criou a lenda das águas virtuosas, associando o suposto milagre à devoção à Virgem Maria. Em razão disso, a fronteira natural entre as cidades de Lambari e Campanha recebeu o nome de Serra das Águas.

A “lenda de Lambari”, como é popularmente conhecida, ganhou destaque em livros e jornais. A mais recente menção a ela está no filme Lambari – Terra das Águas (2020), de Eduardo Biaso e Lúcio Reis Filho (autor deste Blog). O documentário, feito com apoio da Lei Aldir Blanc, narra as origens da cidade pelo ponto de vista de dois memorialistas, a partir de imagens novas e outras do acervo dos realizadores. Ademais, enfatiza o valor das águas para a cultura local e a importância da sua preservação. (O link para o filme está no fim deste post. Não deixe de conferir).

Outras informações podem ser encontradas na Web. Em seu Blog dedicado a Lambari, Antônio Carlos Guimarães (Guima) traz dados históricos e curiosidades sobre a lenda. O mais interessante, talvez, é saber que ela é uma invenção recente. Depois de conhecê-la, vamos descobrir quando e com que propósito surgiu, bem como sua relação com o simbolismo das águas.

A lenda e suas versões

Ilustração da lenda no Parque das Águas de Lambari-MG. Foto de Eduardo Biaso.

Conta a lenda que uma jovem de nome Cecília ficou doente, de um mal incurável. Era por volta de 1780, quando o escravo Antônio de Araújo Dantas descobriu as águas milagrosas atrás da serra de Campanha. A moça tomou das águas e acabou se curando. Grata, ela pediu ao seu pai que erguesse uma capela à Nossa Senhora da Saúde. Cecília, então, casou-se com Tancredo, seu prometido. Ao redor da capela, surgiu uma cidadezinha devota à Virgem.

Guimarães explica o fundo mítico-religioso da lenda das águas virtuosas, o qual liga aos costumes devocionais católicos. De acordo com o memorialista, foi da tradição oral que ela nasceu, logo após a descoberta das fontes no início do século XIX. Conforme mostra, há pelo menos três versões da lenda, datadas de 1910, 1949 e 1964. Estão todas em seu site (clique aqui), junto de imagens dos livros em que aparecem e comentários seus.

Com personagens ficcionais (exceto Antônio, que era, na verdade, um fazendeiro), a lenda situa as origens de Lambari no tempo mítico dos princípios. Em todas as outras tradições do mundo, o papel da água esteve igualmente ligado aos temas centrais de seu simbolismo, mas com ênfase nas origens. Afinal, os mitos tratam de como surgem as coisas.

O simbolismo das águas

De acordo com o Dicionário de Símbolos, das águas fluem três temas principais: fontes de vida, meios de purificação e centros regenerativos. Podemos achar cada um deles nas mais antigas tradições, pois formam vastos imaginários que chegam até os dias de hoje. Na tradição cristã, à qual pertence a lenda das águas virtuosas, a água simboliza, em primeiro lugar, a origem da criação. Na Bíblia, as fontes trazem alegria e encantamento. São lugares sagrados, onde surge o amor e os matrimônios ocorrem. Não por acaso, os cultos se dão em torno das nascentes, cujas águas curam por causa de suas virtudes.

Enfim, a água é símbolo da vida. Este significado, ligado à cura, bem como as ideias de lugar santo, a cidade que daí surge, a fé, o casamento, são temas da lenda das águas virtuosas. De tradição católica, ela mostra como a devoção popular sempre atribuiu às águas um valor sagrado.

De onde vem a lenda

Cassino do Lago, em Lambari. Foto de Eduardo Biaso.

A antiga Águas Virtuosas de Lambary surgiu no início do século XX. Quem a projetou foi o engenheiro e político Américo Werneck (1855-1927), seu primeiro prefeito. Valendo-se das águas minerais e de seu potencial turístico, ele idealizou um pedacinho da Europa no sul de Minas. No local, construiu o grande Cassino, fez avenidas largas, um Lago artificial, um farol, o Parque Wenceslau Brás, entre outros projetos grandiosos.

Além disso, conforme sugere Guimarães, teria sido o próprio Werneck o criador da lenda das águas virtuosas, para efeito de propaganda. Logicamente, ele tomou como base a tradição oral e deu à criação os temas do simbolismo da água, que fazem parte do imaginário. A lenda surgiu primeiramente no jornal O Lambary, em dezembro de 1910.

Uma tradição inventada

Muitas vezes, de acordo com Eric Hobsbawm, tradições tidas como antigas ou que assim parecem podem ser bastante recentes, quando não são inventadas. Este é o caso da lenda das águas virtuosas. Mas, afinal, por que se cria uma tradição? Na definição do historiador, “tradição inventada” é o conjunto de práticas, de natureza ritual e simbólica, que visam transmitir certos valores e normas. O objetivo, portanto, é político.

Eventualmente, instituições, movimentos e grupos políticos viram a necessidade de criar um passado antigo que ultrapassa a história “real”, seja pela lenda ou pela invenção. Foi o que fez Werneck, com o fim de divulgar as águas de Lambari, criando assim uma tradição. De certa forma, ele teve mais sucesso nessa empreitada do que nas obras públicas, pois alguns de seus projetos nunca se concretizaram e outros, infelizmente, estão hoje abandonados. Seu legado foi a própria tradição.

Cidade das águas

Antigo cartão postal do Parque das Águas. Sem data.

Das suas origens míticas e históricas, Lambari ganhou o nome de “cidade das águas”. Antes, os turistas e moradores locais tomavam da água mineral como remédio. Hoje, a crença se mantém tanto quanto o costume de ir ao parque buscar água. A lenda de suas virtudes cumpriu o propósito de gravar na mente ideias, valores e padrões de comportamento, bem como de socialização. Essa é uma categoria das tradições inventadas, segundo Hobsbawm. Afinal, a lenda trouxe um sentido de pertencimento e de identificação com a comunidade local.

Trailer de Lambari – Terra das Águas: https://www.youtube.com/watch?v=7aaphOdBTag.

Assista ao filme aqui.

Referências

Dicionário de símbolos (2020), de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant.

Guimaguinhas (Blog de Antônio Carlos Guimarães).

A invenção das tradições (1997), de Eric Hobsbawm e Terence Ranger.

Como citar este artigo? (ABNT)

REIS FILHO, L. A lenda das águas virtuosas: inventando uma tradição, Projeto Ítaca. Disponível em: https://projetoitaca.com.br/a-lenda-das-aguas-virtuosas-inventando-uma-tradicao/. Acesso em: 04/07/2022.

Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Historiador, professor e escritor. Tem Doutorado em Comunicação (Cinema e Audiovisual) e especialização em Estudos Clássicos.
Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Historiador, professor e escritor. Tem Doutorado em Comunicação (Cinema e Audiovisual) e especialização em Estudos Clássicos.

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