Simbolismo da água em Coisa Banho de Mar, de Letrux

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Letrux em Noite de Climão (Foto: Sillas H)

A cantora e compositora carioca Letícia Novaes (Letrux) lançou seu álbum de estreia em 2017, depois de iniciar na banda Letuce. A terceira faixa de Letrux em Noite de Climão é “Coisa Banho de Mar”, uma colagem quase dadaísta que navega no simbolismo da água. Faz isso por analogia, com palavras, metáforas e um mix de emoções como o amor, o delírio, a desilusão, a saudade e o desejo arrebatador. Vamos explorar as imagens dessa canção indie pop, sobretudo a personagem da sereia, sugerindo suas relações com a mitologia.

O simbolismo da água

Coisa banho de mar / Outro corpo com a gente a se molhar”.

Além de refrescante, um banho pode ser um evento cheio de significados. Afinal, entre todos os povos, o ato em si tem uma virtude purificadora, ligada tanto ao sagrado quanto ao profano. Universalmente, é o rito de passagem de várias etapas da vida, como o nascimento, a puberdade e a morte. Em primeiro lugar, seu simbolismo o associa ao ato de imersão. Referindo-se a um banho de mar, a canção evoca tal sentido na terceira estrofe:

Em forma de enxurrada / Ela volta depois

Arrasta nós dois / Que brutal esse caldo que você me deu”.

Embora “caldo” seja também uma gíria de conotação sexual, vamos surfar no simbolismo da água. Mergulhar nesse líquido, para dele sair, significa voltar às origens. Isto é, sair sem se dissolver totalmente, salvo por uma morte simbólica — “Vai desintegrar no vapor do chão”. Para a psicanálise, a imersão é sobretudo a imagem da regressão ao útero. Nesse sentido, satisfaria uma necessidade de calma, segurança e ternura, já que o retorno à matriz de origem é um retorno à própria fonte da vida. Analogamente, a canção evoca o retorno a um estado de calma e paz.

Eu vou nadar pelada no mar / Águas nas partes, fugir dos desgastes“.

Em segundo lugar, o simbolismo do banho remete à água. Letrux usa palavras e imagens sensórias que aludem a esse elemento, cujo simbolismo abordei em outro texto. Ele gira principalmente em torno de três temas, oriundos das tradições mais antigas: fonte da vida, meio de purificação e centro de regeneração. Com propriedades curativas, portanto, a água é também fertilizante. Daí surge a tradição do banho ritual feminino nas fontes sagradas.

E a sereia?

Para diversos povos, os relâmpagos e outros fenômenos naturais indicam, inegavelmente, a fluidez dos sentimentos. A canção é repleta de sugestões nesse sentido. “Rajada de trovão“, por exemplo, é força desestabilizadora; mas o raio “foi de raspão”. Já “O mesmo banho de mar / Mas agora outra pele pra secar” recupera a ideia de Heráclito, de que não é possível banhar-se duas vezes no mesmo rio, ou seja, tudo flui e nada permanece sendo o que é.

No último verso, a voz poética revela o desejo de águas perenes, de ficar para sempre com quem ama. O instante fugaz remete àquele estado de calma (nostalgia), bem como ao anseio de vive-lo por toda a eternidade. Faz isso na última estrofe, com a metáfora da transmutação em personagem mítico.

Virar sereia, te sequestar, morrer com você, no fundo do mar”.

As sereias são monstros marinhos com cabeça e tronco de mulher, e o resto de pássaro ou, segundo lendas tardias de origem nórdica, peixe. Ligadas ao simbolismo da água, representam sobretudo os perigos da navegação marítima e a própria morte. Nos mitos gregos, Ulisses teve de amarrar-se ao mastro do navio, e seus homens tamparam os ouvidos com cera de abelha, a fim de não ceder à tentação do seu canto.

No Egito, onde as almas dos mortos assumiam forma de pássaro com cabeça humana, as sereias eram a alma do morto que se perdeu e virou vampiro devorador. Contudo, de gênios perversos e criaturas infernais, elas tornaram-se divindades do além que encantam com a harmonia de sua música.

Para não morrer no mar, e outros símbolos

Decerto, foi o simbolismo da sedução mortal que prevaleceu no imaginário, e é dele que fala a canção. Se a vida é uma viagem, as sereias são emboscadas dos desejos e das paixões com o propósito de sequestrar os tolos. Ao passo que vêm dos elementos indeterminados ar (pássaros) e água (peixes), elas seriam obras do inconsciente, sonhos igualmente fascinantes e assustadores. Sendo assim, é preciso fazer como Ulisses: agarrar-se à realidade do mastro (ou da vida) para fugir das ilusões da paixão. Para não morrer com a sereia, no fundo do mar.

Ao mesmo tempo, a voz poética de “Coisa Banho de Mar” surge como o princípio oposto da água: “Meu corpo é o sinal dum novo vulcão“. Este verso dá ao fogo uma conotação sexual, muito comum na música e nas artes. Basta lembrar de David Bowie, por exemplo, que na canção Velvet Goldmine (1972) é o “King Volcano” (Rei Vulcão).

A imagem da “estátua de sal” pode fazer alusão ao Gênesis, primeiro livro da Bíblia. Mais especificamente, à fábula da mulher em fuga que se transformou, ao olhar para trás. Logo, temos não só a ideia de retorno, mas a de não-retorno (uma alerta para evitar das paixões?). O sal também se liga ao tema da canção, já que vários aspectos de seu simbolismo vêm da separação da água do mar, conforme ela evapora. Além disso, pode se opor à fertilidade. Com efeito, a terra salgada — a rival “duna gigante“, talvez — significa terra árida.

Em forma de enxurrada, a canção evoca uma simbologia rica e fluida, feito água. Esta é a leitura do Projeto Ítaca, mas a fonte não seca e a arte permite infinitas interpretações. Afinal, Letrux é sereia, vulcão e musa.

Veja abaixo o clipe da canção “Coisa Banho de Mar”:

Referências

Dicionário de símbolos (2020), de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant.

Letrux em Noite de Climão (2017), de Letícia “Letrux” Pinheiro de Novaes.

Como citar este artigo? (ABNT)

REIS FILHO, L. Simbolismo da água em Coisa Banho de Mar, de Letrux, Projeto Ítaca. Disponível em: https://projetoitaca.com.br/o-simbolismo-da-agua-em-coisa-banho-de-mar-de-letrux/. Acesso em: 04/07/2022.

Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Historiador, professor e escritor. Tem Doutorado em Comunicação (Cinema e Audiovisual) e especialização em Estudos Clássicos.
Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Historiador, professor e escritor. Tem Doutorado em Comunicação (Cinema e Audiovisual) e especialização em Estudos Clássicos.

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