Mulan: a lenda chinesa que inspirou o filme

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A versão em live-action de Mulan tinha estreia marcada nos cinemas. Mas, devido ao grande impacto da pandemia de Covid-19 no circuito dos cinemas, o filme chegou direto à plataforma de streaming Disney+ em setembro de 2020. Na onda de remakes dos clássicos dos anos 1990, essa é a mais nova releitura de uma lenda chinesa muito popular. Reconta a história de Mulan, heroína que veste a armadura do pai, adota uma identidade masculina e vai à guerra. As origens da lenda de Mulan estão nos antigos contos e na tradição oral chinesa.

Também conhecida pela transliteração Fa Mulan, Hua Mulan traz uma mensagem de coragem e honra que fascina gerações em todo o mundo. Durante séculos tem-se discutido se essa personagem é histórica ou ficcional, o que até hoje não foi possível provar. Vamos conhecer um pouco da lenda chinesa por trás dos filmes da Disney.

Mulan no cinema: dos primórdios à Disney em 1998

A comédia Hua Mu Lan de 1939 foi a primeira adaptação da lenda para o cinema. Mas há pelo menos duas outras que datam dos anos 1920, do período silencioso do cinema chinês. No ano de seu lançamento na China, o país estava em guerra com o Japão, de modo que o filme se tornou uma peça de resistência, pois mostra a heroína lutando contra invasores.

Assista ao filme abaixo:

Hua Mu Lan 木蘭從軍 (1939) legendado em inglês.

Seis décadas mais tarde, a Disney levou a lenda às telas em seu famoso desenho animado de 1998. Nessa história de amadurecimento, Mulan deve provar seu valor e mostrar quem realmente é, superando vários desafios em um mundo masculino. No fim, ela não apenas salva o império chinês, como também honra a família e garante um casamento promissor (necessário segundo a tradição chinesa). O filme teve uma sequência em Mulan II: A Lenda Continua (2004). Se o livro The Woman Warrior: Memoirs of a Girlhood among Ghosts (1976), de Maxine Hong Kingston, popularizoua lenda no Ocidente, foi a Disney que fez dela um fenômeno em 1998. No entanto, a história de Mulan é muito mais antiga.

O Poema de Mulan

As versões mais antigas da lenda de Mulan estão nos dois poemas reunidos em Yuefu shiji, antologia compilada por Guo Maoqian no século XII. O primeiro é o “Poema de Mulan” (“Mulan shi”), de autor anônimo e sem data, mas possivelmente do século VI. Com pouco mais de 300 palavras, sua última estrofe mostra como é difícil distinguir o masculino do feminino. Faz isso com a imagem de duas lebres correndo juntas.

Depois veio “A Balada de Mulan”, imitação de meados do século VIII. Esse poema do oficial Wei Yuanfu, da dinastia Tang (618-907 d.C.), foca no extraordinário ato de piedade e lealdade da filha para com o pai. Desde então, a lenda foi adaptada, recontada e referenciada diversas vezes ao longo da história chinesa.

A lenda de Mulan tem aspectos comuns às narrativas míticas de outras partes do mundo, as quais são perenes no tempo e têm muitas versões. Por exemplo: o personagem que sai de casa, entra numa longa aventura e conquista algo extraordinário.

A lenda através dos tempos

Apesar de ter mudado ao longo dos séculos, a lenda de Mulan não perdeu seus elementos básicos. O velho pai de uma moça é convocado para a guerra. Sua família sabe que ele está doente demais para lutar, mas não há escolha. Seu filho é muito novo e sua filha (duas, em algumas versões) também não pode se alistar, porque o serviço militar era exclusivo aos homens. Quando o pai decide ir à guerra, Mulan anuncia à família que vai substituí-lo, mas deve se disfarçar de homem. Então, veste a armadura do pai e se junta a um grupo de soldados a caminho da guerra.

Por doze anos, Mulan lutou lado a lado de homens, preservou a castidade e escondeu sua sexualidade, inclusive dos colegas mais próximos. À frente de uma batalha decisiva, ela conquista a vitória e termina a guerra. Em seguida, recusa a oferta de manter seu posto e volta para casa, cheia de presentes e glórias do imperador. Seus pais e seu irmão fazem um banquete para recebe-la. Mulan, então, troca de roupa, arruma o cabelo e maquia o rosto antes de saudar seus colegas soldados, que ficam em choque, pois não sabiam que ela era mulher.

O remake da Disney

Dos antigos contos chineses, muitos cheios de elementos sobrenaturais, talvez a lenda em questão seja a de caráter mais “mundano”. A transformação da personagem, por exemplo, não é resultado de magia ou intervenção divina, mas do simples ato de trocar de roupa. E isso é o que faz a história de Mulan tão atraente e revolucionária.

No entanto, é preciso destacar a mensagem que ela traz: a transgressão (fingir ser homem) é justificada (para salvar o pai e servir ao seu país), assegurada (para ter sucesso no serviço militar) e mitigada no fim (ao voltar para casa e retomar a vida de mulher). De modo que Mulan é extraordinária, mas não ameaça a estrutura social. Essa lógica se mantém no filme de 1998, mas o remake finalmente a liberta da tradição.

Conforme vimos, a lenda de Mulan foi recontada várias vezes no decorrer dos séculos. Cada uma das versões, no entanto, reflete o contexto social de seu tempo. O remake da Disney+ reatualiza a lenda para o público contemporâneo, dando à personagem maior poder de escolha e um “chi” (energia) de super-heroína. Além disso, toma como fonte de inspiração o antigo poema chinês que deu origem à lenda. Faz referência, por exemplo, ao título de “khan”, indicando assim que o vilão Bori Khan é um poderoso chefe militar. Ao mesmo tempo, não ignora os elementos básicos da lenda, relacionados à jornada do herói. Apesar do caricato dragão Mushu ter ficado apenas no filme de 1998, essa nova versão mistura outros elementos míticos, como a fênix (e a misteriosa “bruxa”), que analisarei em outro post.

Referências

Mulan: five versions of a classic chinese legend with related texts (2010), de Shiaman Kwa e Wilt L. Idema.

Mulan: the history of the Chinese legend behind the film. HistoryExtra (BBC History). Leia aqui.

“UBC professor translates first surviving Mulan film from the 1930s”, por Tiffany Crawford (Vancouver Sun, 01/09/2020). Leia aqui.

Para saber mais sobre a mitologia chinesa, leia: https://projetoitaca.com.br/2017/07/21/quem-sao-os-tao-tei-de-a-grande-muralha/

Como citar este artigo? (ABNT)

REIS FILHO, L. Mulan: a lenda chinesa que inspirou o filme, Projeto Ítaca. Disponível em: https://projetoitaca.com.br/mulan-a-lenda-chinesa-que-deu-origem-ao-filme/. Acesso em: 03/07/2022.

Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Historiador, professor e escritor. Tem Doutorado em Comunicação (Cinema e Audiovisual) e especialização em Estudos Clássicos.
Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Historiador, professor e escritor. Tem Doutorado em Comunicação (Cinema e Audiovisual) e especialização em Estudos Clássicos.

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