O deus dos Cenobitas explicado: Leviatã em Hellraiser

Após resolver o enigma de um misterioso cubo, um grupo de pessoas abre as portas do Inferno. Como resultado, invocam seres demoníacos chamados de Cenobitas, que vêm de um plano onde dor e prazer se completam. Esta é a premissa de Hellraiser: Renascido do Inferno, filme de Clive Barker e adaptação de seu livro The Hellbound Heart. Desde seu lançamento em 1987, esse clássico do horror gerou não apenas uma franquia, como também uma mitologia fantástica. Agora que ele completa 35 anos, a Hulu traz um reboot com muitas referências, elementos novos e outros já estabelecidos, como é o caso do deus dos Cenobitas. Vamos conhecer essa divindade infernal, introduzida em Hellbound: Hellraiser II (1988).

O deus dos Cenobitas surge

Concepção da mente criativa de Barker, o filme original apresenta os Cenobitas como seres misteriosos, mutilados e escarificados que se intitulam “exploradores das regiões extremas da experiência”. Em princípio, pouco sabemos sobre os monges profanos em roupa de couro. Somente a continuação do filme aprofundaria sua história e traria novas informações.

Hellraiser II revela que os Cenobitas, antes de tomarem formas demoníacas, já foram humanos. Sua transformação em seres grotescos deu-se por ação do deus das trevas Leviatã, o deus dos Cenobitas. Desde então, tornaram-se servos do Inferno e agentes da sua vontade, fazendo tudo em nome do deus onipotente e onipresente. No filme, Leviatã governa a dimensão infernal de onde os Cenobitas vêm. Conforme sabemos, esse Inferno não é o epítome do caos, mas da ordem. Nele, não há cavernas, nem chamas; há corredores, escadarias e nuvens escuras no horizonte. Ainda assim, é um vasto labirinto com reinos intermediários onde os almas experimentam suas dores e prazeres pessoais.

Quem é Leviatã?

Na franquia Hellraiser, o deus Leviatã é “O Senhor do Labirinto”, também conhecido como o “Deus da Fome, da Carne e do Desejo”. Contudo, essa divindade vem da mitologia. Para os hebreus, Leviatã é o monstro primordial, demônio dos mares e rei das feras. De modo que o Livro de Jó o descreve como um ser imenso e indestrutível em forma de baleia. No poema épico Paraíso Perdido (1667), o inglês John Milton o chamou de “Arquidemônio”. Posteriormente, o Dictionnaire infernal (1863) de Collin de Plancy se referiu a ele como o “Grande Almirante do Inferno”.

Na cultura pop, Leviatã em geral aparece como monstro marinho. É representado assim, por exemplo, nos games da franquia Final Fantasy. Em contraste, Hellraiser II subverte todas as imagens tradicionais. Nesse filme, Leviatã não é um monstro marinho, um rei-demônio ou qualquer outra coisa reconhecível. Pelo contrário, o deus dos Cenobitas surge como um enorme poliedro cósmico que lança raios da mais pura escuridão. Sua forma condiz com a representação que Hellraiser faz do Inferno, onde não há caos e tudo existe metodicamente, com regras rígidas. Essa fixidez lógica se reflete não apenas na estrutura labiríntica da dimensão infernal, mas também na precisão matemática e geométrica do próprio Leviatã. Assim sendo, o deus das trevas é personificação da estabilidade e da ordem.

Leviatã em Hellraiser (2022)

Reboot da franquia, Hellraiser (2022) mostra relances desse mesmo Leviatã, que o colecionador de arte oculta Voight (Goran Visnjic) pretende invocar. Os Cenobitas manifestam devoção e lealdade irrestrita ao Senhor do Labirinto, a ponto de Pinhead chamá-lo de “nosso deus”. Assim como em Hellraiser II, o deus dos Cenobitas é um poliedro cósmico desinteressado em mover uma guerra contra o Bem, ou mesmo em corromper a humanidade. Afinal, no universo de Hellraiser a humanidade já se corrompeu. Com efeito, o que o deus das trevas faz é se aproveitar disso, trazendo à tona quem as pessoas realmente são. Ele transforma os cruéis Voight e Channard (do segundo filme) em Cenobitas, por exemplo.

Assim sendo, o horror cósmico de Hellraiser se alinha à visão de H. P. Lovecraft (1890-1937). A ênfase do escritor americano na insensatez e na inconsequência da humanidade leva a crer que todos os nossos esforços de nada valem, diante de um universo infinito e desinteressado. Leviatã seria, sobretudo, uma representação desse universo. Hellraiser II e o reboot seguem, portanto, a premissa do filme original, que John Kenneth Muir definiu como uma reflexão filosófica sobre a natureza humana. Daí emerge não só uma visão pessimista, como também uma subversão dos valores tradicionais cristãos.

Referências

Dicionário de símbolos (2020), de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant.

“Demons to some, angels to others: eldritch horrors and hellbound religion in the Hellraiser films”, por Lúcio Reis Filho. Em: Divine Horror (2017).

The Hellbound Heart: A Novel (2009), de Clive Barker.

Horror Films of the 1980s (2007), de John Kenneth Muir.

The Hellraiser films and their legacy (2006), de Paul Kane.

Nightmare Movies: Horror on Screen since the 1960s (2001), de Kim Newman.

“Crawling Celluloid Chaos – H.P. Lovecraft in Cinema”, por Andy Black. Em: Necronomicon – The Journal of Horror and Erotic Cinema (1996), v. 1.

The Hellraiser Chronicles (1992), de Stephen Jones. Entrevista com Clive Barker.

Como citar este artigo? (ABNT)

REIS FILHO, L. O deus dos Cenobitas explicado: Leviatã em Hellraiser, Projeto Ítaca. Disponível em: https://projetoitaca.com.br/o-deus-dos-cenobitas-explicado-hellraiser/. Acesso em: 28/03/2024.

Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Lúcio Reis Filho é Ph.D. em Comunicação (Cinema e Audiovisual), escritor e cineasta especializado nas interseções entre Cinema, História e Literatura, com foco nos gêneros do horror e da ficção científica. Historiador com especialização em Estudos Clássicos pela Universidade de Brasília, em parceria com a Cátedra Unesco Archai (Unb/Unesco), é Coordenador do Projeto Ítaca. Seus interesses acadêmicos e de pesquisa são essencialmente interdisciplinares; abrangem Cinema, Artes Visuais, História, Literatura Comparada e Estudos da Mídia. Escreve periodicamente resenhas de livros, filmes e jogos para diversas publicações.
Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Lúcio Reis Filho é Ph.D. em Comunicação (Cinema e Audiovisual), escritor e cineasta especializado nas interseções entre Cinema, História e Literatura, com foco nos gêneros do horror e da ficção científica. Historiador com especialização em Estudos Clássicos pela Universidade de Brasília, em parceria com a Cátedra Unesco Archai (Unb/Unesco), é Coordenador do Projeto Ítaca. Seus interesses acadêmicos e de pesquisa são essencialmente interdisciplinares; abrangem Cinema, Artes Visuais, História, Literatura Comparada e Estudos da Mídia. Escreve periodicamente resenhas de livros, filmes e jogos para diversas publicações.

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