Final Fantasy VII Remake: cyberpunk na sua essência

Não é novidade que Final Fantasy VII (FFVII) é um dos favoritos entre os fãs de RPG. Logo após seu lançamento, em 1997, o capítulo sete da franquia da Square ganhou status cult, dando base para outros games e animações no estilo cyberpunk. Mas, de todos os spin-offs em diferentes mídias, tudo que os fãs queriam era um remake para o PlayStation 3. O sonho se tornou realidade em 2020, com o Final Fantasy VII Remake. Ainda que a nova versão tenha sido atualizada, ela se mantém fiel ao game original, com duras críticas ao capitalismo e vários temas da ficção científica.

Porque Final Fantasy VII é tão importante

Já em meados dos anos 2000, FFVII era, por unanimidade, um dos melhores games de todos os tempos. Com seus heróis, temas e críticas sociais, ele se tornou um dos games mais influentes das últimas décadas; abriu as portas para outros RPGs fora do Japão; e, junto dos animes, fez a cultura pop daquele país deslanchar no mercado global. E chegou em 2022, aos seus 25 anos, sem perder o brilho cyberpunk.

De acordo com Matt Alt, FFVII injetou “uma boa dose de temas japoneses” no Ocidente. Por exemplo, os personagens de olhos grandes e cabelos pontudos, o melodrama no estilo mangá, os heróis andróginos e a ideia de que os games têm, sim, profundidade. Em 2005, sua história continuou no filme em CGI Final Fantasy VII – Advent Children. Naquele mesmo ano, a Electronic Entertainment Expo (E3) exibiu uma nova versão da sequência de abertura do game, recriada com os recursos gráficos do PlayStation 3. Assim, pôs lenha na fogueira do tão esperado remake. Depois de uma década de rumores, o sonho dos fãs finalmente se tornaria realidade. O remake foi anunciado pela E3 em 2015, com lançamento em 2020.

O que mudou no Remake

A equipe de desenvolvimento do FFVII original incluía o produtor, co-roteirista e criador da franquia Hironobu Sakaguchi; o diretor e co-roteirista Yoshinori Kitase; o artista Yusuke Naora; o designer de personagens e co-roteirista Tetsuya Nomura; e o roteirista Kazushige Nojima. O game foi bastante inovador em seu tempo. Com a transição do Super NES para os consoles da geração seguinte, ele se tornou o primeiro título da franquia a usar computação gráfica 3D. Sucesso comercial e de crítica, FFVII elevou o nome Final Fantasy ao topo do universo dos RPGs.

Para o Final Fantasy VII Remake, a Square teve a opção de simplesmente remasterizar o game original com gráficos melhores, como muitos fãs pediam. No entanto, os gráficos e muitas das mecânicas pareciam datados levando em consideração os padrões atuais. Diante disso, a equipe de desenvolvimento decidiu fazer um remake total, reconstruindo os sistemas de jogo para agradar os gostos contemporâneos. Assim, partiram de tecnologias novas para recriar o mundo do game.

Em primeiro lugar, o objetivo era fazer um game ao mesmo tempo “novo e nostálgico” para os fãs do FFVII original. Em segundo lugar, buscava-se apresentá-lo a uma nova geração de jogadores. Então, com base no estilo de Dissidia Final Fantasy, criou-se um sistema de batalha com muito mais ação. A equipe também optou por novos modelos e designs para os personagens. A intenção era equilibrar o realismo de Advent Children com a estilização própria dos animes.

A premissa de Final Fantasy VII

Com o intuito de recriar a obra original, Final Fantasy VII Remake é o primeiro volume de uma série de games. A princípio, essa nova versão abrange só o ato um de FFVII, ambientado na metrópole cyberpunk Midgar. Os jogadores controlam o mercenário Cloud Strife, que se junta ao grupo eco-terrorista AVALANCHE. Eles se opõe à Shinra, megacorporação que está drenando a energia vital do planeta. Faz isso com o propósito de alimentar uma sociedade industrial e desenvolver tecnologia de ponta.

A premissa é, portanto, a mesma do FFVII original: um grupo de heróis tenta salvar o mundo da exploração capitalista. Mas, ainda que essa nova versão do game seja comercializada como um remake, sua narrativa traz mudanças significativas. Por exemplo, inclui diversos elementos ao enredo, expande áreas do mapa e aprofunda o desenvolvimento dos personagens.

O mundo e os personagens de Final Fantasy VII

FFVII é conhecido por seus temas cyberpunk. Podemos comparar a cidade de Midgar, cujas raízes estão no Metropolis (1927) de Fritz Lang, aos ambientes urbanos de Blade Runner (1982) e Akira (1988). O conceito básico é o de um mundo industrial de tecnologia avançada, mas de profunda desigualdade, em que a humanidade se perde. No Final Fantasy VII Remake, os jogadores têm acesso a outras áreas do mundo narrativo, cujos elementos vêm desse gênero da ficção científica.

Há também muito do retrofuturismo steampunk de outros títulos da franquia, porém adaptados a um estilo mais dieselpunk. Os temas do biopunk também estão presentes, por exemplo, na trama da alteração genética que sofrem os soldados da Shinra. Enfim, FFVII é uma trama cyberpunk sobre a voracidade do capitalismo, questões existenciais, transtornos psicológicos, mudança climática e luta de classes.

Seus personagens foram adaptados de várias formas no Final Fantasy VII Remake. Por exemplo, o jeito misterioso e apático de Cloud não passa de fachada para mascarar suas inseguranças. Além disso, o herói bonito, andrógino e sensível funciona como uma desconstrução do arquétipo da masculinidade tóxica. O antagonista Sephiroth, por sua vez, deixa de ser uma presença iminente e aparece mais e mais no remake.

As críticas sociais e o ativismo climático

De acordo com Stephen K. Hirst, da Ars Technica, Final Fantasy VII inspirou toda uma geração de ativistas climáticos, que incluem membros do Greenpeace. Afinal, o game faz duras críticas ao poder das megacorporações, ao monopólio corporativo, à destruição do meio ambiente e à desigualdade econômica. Em tempos de aquecimento global, tais críticas não perdem sua atualidade e voltam no Remake. O diretor Yoshinori Kitase observou que, 25 anos depois, os temas de FFVII continuam sendo relevantes. Para a Comic Book Resources, eles são ainda mais relevantes hoje do que eram em 1997. Dani Di Placido traçou paralelos entre os eventos do game e questões contemporâneas, tais como as mudanças climáticas, a catástrofe ambiental, o colapso econômico e a pandemia de COVID-19.

A parte dois do Remake, Final Fantasy VII Rebirth, tem previsão de lançamento no final de 2023 ou no início de 2024 para PlayStation 5. Veja o trailer:

Referências

Final Fantasy Ultimania Archive Volume 2 (2018).

Final Fantasy: La leyenda de los cristales (2013), de Pablo Taboada.

How Final Fantasy VII radicalized a generation of climate warriors (Ars Technica, 29/07/2021), por Stephen K. Hirst.

Final Fantasy VII’s Story Is More Meaningful Today Than in 1997 (Comic Book Resources, 22/06/2019), por Anthony Gramuglia.

Como citar este artigo? (ABNT)

REIS FILHO, L. Final Fantasy VII Remake: cyberpunk na sua essência, Projeto Ítaca. Disponível em: https://projetoitaca.com.br/final-fantasy-vii-remake-cyberpunk-na-sua-essencia/. Acesso em: 23/04/2024.

Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Lúcio Reis Filho é Ph.D. em Comunicação (Cinema e Audiovisual), escritor e cineasta especializado nas interseções entre Cinema, História e Literatura, com foco nos gêneros do horror e da ficção científica. Historiador com especialização em Estudos Clássicos pela Universidade de Brasília, em parceria com a Cátedra Unesco Archai (Unb/Unesco), é Coordenador do Projeto Ítaca. Seus interesses acadêmicos e de pesquisa são essencialmente interdisciplinares; abrangem Cinema, Artes Visuais, História, Literatura Comparada e Estudos da Mídia. Escreve periodicamente resenhas de livros, filmes e jogos para diversas publicações.
Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Lúcio Reis Filho é Ph.D. em Comunicação (Cinema e Audiovisual), escritor e cineasta especializado nas interseções entre Cinema, História e Literatura, com foco nos gêneros do horror e da ficção científica. Historiador com especialização em Estudos Clássicos pela Universidade de Brasília, em parceria com a Cátedra Unesco Archai (Unb/Unesco), é Coordenador do Projeto Ítaca. Seus interesses acadêmicos e de pesquisa são essencialmente interdisciplinares; abrangem Cinema, Artes Visuais, História, Literatura Comparada e Estudos da Mídia. Escreve periodicamente resenhas de livros, filmes e jogos para diversas publicações.

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