Professor Polvo: lições dos amigos de oito patas

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Indicado ao Oscar de melhor documentário em 2021, Professor Polvo (My Octopus Teacher, 2020) é tocante e tem uma narrativa singular. O filme segue os passos do cineasta e explorador marinho Craig Foster na costa da África do Sul. Em princípio, Foster acha no fundo do mar uma forma estranha, coberta de pedras e conchas, que ele descobre ser um polvo. A longo de um ano, o cineasta cria forte vínculo com essa intrigante criatura, enquanto tenta desvendar os mistérios de seu mundo submarino. Até que os limites entre homem e animal enfim se diluem. O filme ajuda a pensar como os polvos, em virtude de suas feições, viraram monstros marinhos nos mitos e alienígenas na ficção científica.

Os misteriosos polvos de outro mundo

Conforme nos lembra Foster, “alguns dizem que o polvo parece um alienígena”. Não por acaso, em vários filmes de ficção científica os alienígenas têm a forma desses animais. Podemos lembrar de A Chegada (Arrival, 2016) e da raça dos Quarren em Star Wars, entre tantos outros exemplos. Mas essa tradição vem da literatura, de uma época em que o cinema ainda era jovem. No conto “O Chamado de Cthulhu” (1926), H. P. Lovecraft descreve o principal monstro de seu panteão com traços de “um polvo, um dragão e uma caricatura humana”.

No fundo do mar, Foster se vê num mundo totalmente diferente do nosso, com florestas nebulosas de algas e fauna exótica. Os animais que vê são estranhos, como os da ficção científica. De todos, no entanto, é o polvo que chama a sua atenção. Faz isso de tal forma que o homem passa a ver algo incomum nessa criatura.

Logo em seguida, Foster nota sua inteligência (fora do comum para um molusco), destreza e capacidade de adaptação, e criatividade para driblar os predadores. “Ele sonha? Se sim, com o que sonha?”, pergunta-se o cineasta. “Em sua casa em R’lyeh, Cthulhu, morto, espera sonhando”, diria Lovecraft — decerto, ele foi o escritor que mais popularizou o polvo na ficção científica, depois de H. G. Wells em seu Guerra dos Mundos (1898).

Eventualmente, o cineasta ganha a confiança do polvo e cria com ele um vínculo poucas vezes visto entre homem e animal. Esse é o aspecto mais tocante do filme. Além disso, Foster aprende uma lição muito valiosa sobre a vida e a conservação das espécies, o que dá ao filme o nome de Professor Polvo.

O polvo na mitologia

Vasto e misterioso como o espaço sideral, o oceano virou palco para os monstros da imaginação. Com efeito, é um mundo alienígena cheio de vida desconhecida, ora hostil, ora benévola. Os monstros marinhos da literatura vêm dos mitos e do folclore, das histórias de serpentes, dragões e outros répteis fantásticos. Tais histórias eram comuns antes da ciência provar que baleias, tubarões e lulas gigantes de fato existiam. Na literatura e no cinema, sobretudo, esses monstros surgem como seres violentos e cruéis, sejam répteis, anfíbios, moluscos ou mamíferos.

Monstros marinhos existem no imaginário de várias culturas. Nas lendas, eventualmente causam tsunamis, terremotos e o sumiço de barcos. Nos mitos gregos, Hércules e Perseu lutam contra monstros desse tipo, bem como Odisseu, que enfrentou Cila e Caríbdis. Nos mitos nórdicos, a Jörmungandr é a serpente do mundo. No Talmut hebraico, há o Leviatã; na Bíblia, a baleia de Jonas. Tais personagens enriqueceram a literatura ao longo do tempo.

De todos, o que mais lembra um polvo é certamente o Kraken, polvo gigante que surgiu no folclore, depois na literatura e no cinema. Esse monstro dorme nas profundezas, até que o perturbam e ele e se levanta, causando caos e destruição — em geral, é hostil com os humanos, principalmente nas histórias de horror. Com seus longos e fortes tentáculos, conta-se que era capaz de afundar os navios nos mares da Noruega. Essa fábula era muito comum nos tempos das grandes navegações: explicavam porque certos aventureiros iam, mas não voltavam.

A lição do Professor Polvo

A imagem do polvo enquanto monstro ou força da natureza nasceu, inegavelmente, do nosso medo do desconhecido. Em síntese, Professor Polvo revela como esse animal é inteligente, sensível e hábil. Também diz muito sobre a intervenção do homem na natureza, bem como sobre a necessidade de cuidar do meio ambiente. Como resultado de suas pesquisas, o cineasta Craig Foster lançou o Sea Change Project (clique aqui), cuja missão é preservar os oceanos e a vida marinha a partir da África do Sul. O filme ajuda a saber mais sobre esse projeto.

Referências

“The Call of Cthulhu” em The H. P. Lovecraft Archive (online): https://www.hplovecraft.com/writings/texts/fiction/cc.aspx

Como citar este artigo? (ABNT)

REIS FILHO, L. Professor Polvo: lições dos amigos de oito patas, Projeto Ítaca. Disponível em: https://projetoitaca.com.br/professor-polvo-e-uma-licao-sobre-os-amigos-octopodes/. Acesso em: 04/07/2022.

Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Historiador, professor e escritor. Tem Doutorado em Comunicação (Cinema e Audiovisual) e especialização em Estudos Clássicos.
Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Historiador, professor e escritor. Tem Doutorado em Comunicação (Cinema e Audiovisual) e especialização em Estudos Clássicos.

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