Sete de Nove e a busca da perfeição em Star Trek: Voyager

Já falamos sobre as mulheres fortes da série Star Trek: Voyager. Por exemplo, a relação entre Janeway (Kate Mulgrew) e Sete de Nove (Jeri Ryan), cuja humanidade a capitã luta para trazer à tona. Em princípio, ela é uma vilã cibernética como os demais membros de seu Coletivo, até que a nave da Federação a resgata. Assim começa seu longo processo de humanização, desde sua entrada para o elenco na temporada 4. Essa personagem fascinante logo ganhou o coração dos fãs, como uma das favoritas da franquia de ficção científica. Além da rigidez de caráter, força e presença, sua determinação é inabalável. Sete busca a “perfeição”, o que chega perto de uma crença religiosa para os Borgs, conforme veremos.

A metamorfose de Sete

Sete de Nove chega à Voyager durante a aliança temporária entre Janeway e os Borgs, com o propósito de vencer um inimigo em comum, a Espécie 8472. Mas é sempre um erro confiar nos Borgs. Depois que vencem o inimigo, Sete trai os humanos e tenta entrega-los para o Coletivo. Janeway então revida, desfazendo seu elo com os Borgs. E o elo já durava toda uma vida, pois Sete fora vítima de assimilação na infância, sendo assim transformada em Borg.

O corpo de Sete de Nove, logo que chega à Voyager, passa a rejeitar as nanossondas e os implantes Borg, que o Doutor (Robert Picardo) remove cirurgicamente. Esse é o início da transformação, do monstro cibernético, pálido, calvo e andrógino, em ser humano. Tempos depois, Sete vira uma bela mulher, alta e loira. Assim como na antiga fábula, o patinho feio se torna um lindo cisne. A metamorfose é tema da religião e da mitologia mundial. Nas lendas, esse processo ora ocorre de fato, ora é figurativo.

Sabemos que os Borgs vivem como abelhas, que simbolizam tanto a união quanto o intelecto. Por analogia, Sete tem senso de grupo e a mente brilhante, assertiva e totalmente lógica. As abelhas também evocam a eloquência e a poesia. No intuito de reforçar os elos com a sua humanidade e trazê-la à tona, o Doutor introduz Sete ao mundo das artes. A relação de ambos é similar à do Professor Higgins (Rex Harrison) com Eliza Doolittle (Audrey Hepburn) em Minha Bela Dama (1964). Por conseqüência, Sete desenvolve gosto pelo canto, pela dança e pela interpretação de papeis.

A religião dos Borgs

O único objetivo dos Borgs é consumir tecnologia. Fazem isso pela assimilação brutal de outras espécies, a fim de melhorar os aspectos biológicos e técnicos de sua coletividade. Pela fusão das vantagens de suas presas, tentam chegar a um estado homogêneo e “perfeito” de existência. Ainda que recupere aos poucos sua humanidade, Sete de Nove não deixa de lado essa busca pela “perfeição” — um resquício dos seus dias na colmeia.

No episódio “The Omega Directive” (temporada quatro), os Borgs veem na Partícula Ômega uma expressão da perfeição. Na verdade, ela é um “santo graal” tecnológico que desejam assimilar a todo custo. De seu Coletivo, Sete é a única que chega a contemplar esse estado puro. Isso ocorre a bordo da Voyager, no momento em que as moléculas de Ômega se estabilizam espontaneamente numa câmara de ressonância harmônica.

Posteriormente, a capitã Janeway descreve a epifania de Sete como uma experiência religiosa. Ao longo da série, ambas as personagens criam uma relação sólida que vai além dos papéis de mentora, mãe, filha ou irmã. De fato, Sete parece ter visto a divindade, o ser supremo de forma transcendente e perfeita. Não por acaso, Ômega é uma partícula de luz pura, que, na tradição cristã, é símbolo da revelação e da própria divindade.

A obsessão dos Borgs com a perfeição também se revela na forma de suas naves, que são enormes cubos. Pelo seu equilíbrio, o cubo é símbolo da estabilidade e da perfeição, bem como imagem da eternidade, em virtude de seu caráter sólido. Junto da esfera, que é figura da simetria por excelência, o cubo simboliza a totalidade. Os Borgs também possuem uma nave menor, que é esférica.

Referências

Dicionário básico de filosofia (1993), de Hilton Japiassu e Danilo Marcondes.

Dicionário de símbolos (2020), de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant.

The Ethics of the Borg (Geeks by Vocal Media).

Star Trek as Myth: Essays on Symbol and Archetype at the Final Frontier (2010), de Matthew W. Kapell (ed.).

Saiba mais

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A comunicação pelos mitos em Star Trek

Como citar este artigo? (ABNT)

REIS FILHO, L. Sete de Nove e a busca da perfeição em Star Trek: Voyager, Projeto Ítaca. Disponível em: https://projetoitaca.com.br/sete-de-nove-e-a-busca-da-perfeicao-em-star-trek-voyager/. Acesso em: 27/03/2024.

Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Lúcio Reis Filho é Ph.D. em Comunicação (Cinema e Audiovisual), escritor e cineasta especializado nas interseções entre Cinema, História e Literatura, com foco nos gêneros do horror e da ficção científica. Historiador com especialização em Estudos Clássicos pela Universidade de Brasília, em parceria com a Cátedra Unesco Archai (Unb/Unesco), é Coordenador do Projeto Ítaca. Seus interesses acadêmicos e de pesquisa são essencialmente interdisciplinares; abrangem Cinema, Artes Visuais, História, Literatura Comparada e Estudos da Mídia. Escreve periodicamente resenhas de livros, filmes e jogos para diversas publicações.
Lucio Reis Filho

Lucio Reis Filho

Lúcio Reis Filho é Ph.D. em Comunicação (Cinema e Audiovisual), escritor e cineasta especializado nas interseções entre Cinema, História e Literatura, com foco nos gêneros do horror e da ficção científica. Historiador com especialização em Estudos Clássicos pela Universidade de Brasília, em parceria com a Cátedra Unesco Archai (Unb/Unesco), é Coordenador do Projeto Ítaca. Seus interesses acadêmicos e de pesquisa são essencialmente interdisciplinares; abrangem Cinema, Artes Visuais, História, Literatura Comparada e Estudos da Mídia. Escreve periodicamente resenhas de livros, filmes e jogos para diversas publicações.

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